quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Vruuuuuuummmmmmm

Eu adoro corridas de automóveis! E o termo ‘automóveis’ cabe bem, pois hoje vou falar de carros especiais, bem nascidos, com DNA. Vocês já conhecem a GT3 Brasil?


Pois a categoria nasceu no ano passado e trouxe carros de verdade para correr por aqui. Se há algo trágico nessa história é imaginar que só temos um autódromo de nível (Interlagos), um ‘bem mais ou menos’ (Curitiba) e um monte de “super kartódromos”.


Infelizmente e apesar de boa tradição, do jeito que estão hoje não posso considerar pistas como Tarumã, Londrina, Campo Grande e Brasília como autódromos de verdade. Pra completar, o nosso alcaide destruiu um dos melhores autódromos do mundo para fazer o Pan do Nuzman.


Carros
Já há algum tempo que o automobilismo brasileiro vive à míngua, com a extinção dos campeonatos de fórmula e sobrevivendo apenas da Stock e da Truck. Até que...


Vipers, Ferraris, Lamborghinis e Porsches apareceram por aqui. O campeonato do ano passado começou em agosto e teve onze carros e cinco rodadas duplas. Um bom esquenta que deu muito certo. Tanto que em 2008 teremos 23 carros de 19 equipes (por enquanto). De quebra, já temos a confirmação de dois novos modelos: Ford GT e Aston Martin.


Regulamento
Além de carros novos, calendário novo. Em 2008, o campeonato começa em abril e termina em novembro, com nove rodadas duplas: Curitiba (3), Interlagos (2), Tarumã, Santa Cruz do Sul, Argentina e Uruguai. Cada evento terá duas corridas de uma hora de duração com parada obrigatória nos boxes para troca de pilotos (cada carro tem dois pilotos), sempre entre os minutos 23 e 37.


A saída do Brasil no final da temporada prevê a tentativa de transformar a categoria em sul-americana. A idéia é boa e o regulamento técnico permite o intercâmbio internacional.


As máquinas
Treze modelos são homologados pela FIA para os campeonatos de GT3. Isso significa que qualquer carro GT3, de qualquer lugar do mundo, tem condições técnicas de correr qualquer campeonato. Sem contar a possibilidade de participar de grandes eventos, como Le Mans.


O bom é que, ao contrário dos chassis tubulares e bolhas de fibra da Stock – vendida como a ‘melhor categoria do Brasil e entre as melhores do mundo’ -, na GT3 os carros são de verdade.


Os carros são os seguintes (no Brasil, correrão os grifados): Aston Martin DBR S9, Audi R8, Corvette Z06, Dodge Viper, Ferrari 430, Ford GT, Jaguar XKR, Lamborghini Gallardo, Maserati Gran Sport, Morgan, Ford Mustang, Porsche 997 e BMW Alpina B6 S Coupé (a partir de 2008). As fotos de todos (versão urbana e corrida, exceto BMW) estão espalhadas ao longo do post, em ordem alfabética.


Pilotos
Outra atração do campeonato serão (alguns) pilotos: Alceu Feldman, Thiago Marques, Valdeno Brito, Xandy Negrão, Andreas Mattheis, Daniel Serra, Walter Derani e Giuliano Losacco (atuais ou ex-Stock Car); os potugueses José Nelson Graça e Mario Silva; Ricardo Rosset, Roberto Pupo Moreno e Nélson Piquet (ex-F1).

É isso mesmo. Depois de encaminhar a carreira do filho Nelson Ângelo, hoje na Fórmula 1, o tricampeão resolveu voltar a competir e, naturalmente, se divertir. Vai correr ao lado do piloto de muitas categorias e velejador Eduardo Souza Ramos em um Ford GT. Quer dizer, mesmo que tudo não fosse tão promissor, valeria a pena acompanhar as corridas só pra ver O cara em ação.


O que precisa
Na verdade, a GT3 não é exatamente a primeira categoria de carros de verdade no Brasil. Antes dela, e ainda funcionando, já existiam a Copa Porsche e o Troféu Maserati. Os problemas das duas categorias (e agora da GT3) são os seguintes: quantidade + qualidade de pilotos (a GT3 até que está bem, mas na Porsche o Otávio Mesquita anda na frente...) e a falta de público.


Os dois podem ser resolvidos com comunicação bem feita. É inadimissível que as corridas aconteçam com arquibancadas vazias e as transmissões sejam, na verdade, VTs em horários estranhos. Há que se investir e muito. Com mais comunicação, mais público e mais e melhores pilotos serão atraídos naturalmente. De quebra, poderiam pensar em um calendário único. Imaginem poder ir ao autódromo para um dia de programação completa das três categorias, com quatro ou cinco provas...


Mais informações
GT3 Brasil
Cronospeed
FIA

domingo, 24 de fevereiro de 2008


Tu és time de tradição
Raça, amor e paixão
Ó meu Mengo
Eu sempre te amarei
Onde estiver estarei
Ó meu Mengo



Foto: Ivo Gonzales (O Globo)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O último muro

Nunca fui um defensor ferrenho de Cuba e do Fidel que conheci. Sim, porque o Fidel que conheci é muito diferente do Fidel que derrubou Fulgêncio. E nunca fui partícipe dos maniqueísmos simplórios, como contra ou a favor porque sim ou porque não, que acabaram transformando a revolução cubana e seus líderes em ícones pop.

Mas também sempre tive a certeza que Cuba chegou ao ponto em que está, com todas as dificuldades, por culpa do embargo, disfarçado num rescaldo safado da guerra fria. Certamente, sem o bloqueio, haveria outros problemas e talvez o regime até não existisse mais. Mas 'se' não existe (se sapo tivesse embreagem não pulava tanto).

Enfim, segue abaixo um belo texto do Flávio Gomes, que nada mais é que um ponto de vista. Só isso, entre tantas concordâncias e discordâncias que podem haver. Aliás, se alguém quiser discorrer sobre o tema, fiquem bem à vontade.

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Fidel Castro renunciou hoje à Presidência de Cuba e ao comando das Forças Armadas do país. A data, 19 de fevereiro de 2008, entrará para os livros de História como o dia da queda do Muro de Berlim e da dissolução da URSS. É a História sendo escrita diante de nossos olhos.

Mas esta noite, no Brasil, o assunto será o paredão do BBB.

Essa é uma das diferenças básicas entre as sociedades cubana e brasileira. Nós vemos Cuba sob o olhar de décadas de propaganda americana sobre a ilha. Analisamos o regime sob a ótica da frivolidade, fazendo gracejos sobre os carros velhos, a quantidade de canais de TV, a falta de celulares. E depois, num segundo momento, tentamos politizar a questão cubana com o argumento único de que "se fosse bom não proibiriam ninguém de sair" e coisas do tipo.

Tese superficial como um espinho.

Com nossa visão americanizada de mundo, não conseguimos compreender e nem aceitar uma sociedade em que a prioridade não é comprar carro bonito, ou o último Motorola, ou o apartamento na Riviera. Viver é ter. Qualquer coisa que não seja parecida com isso é não-viver.

Esse é o maior engano que se comete quando se fala de Cuba: não entender que existe gente no mundo que não liga para essas coisas. Cuba vive sob o mesmo regime há meio século. 90% de sua população de 11,2 milhões de habitantes (dado de 2002) — menor que a da cidade de São Paulo — tem até 64 anos. Ou seja: praticamente todos nasceram depois que Fidel derrubou a putaria de Fulgêncio Batista.

Viver, para essa gente, é uma experiência muito diferente da nossa. Batalha-se pelo supérfluo, com a certeza de que o básico está garantido: educação, saúde, emprego (antes de seguir, leia este belo resumo sobre Cuba, com dados muito relevantes; preste especial atenção no quadro que fala sobre a política dos EUA em relação ao país).

Em tudo que realmente importa, Cuba é melhor que a maior parte do planeta. Mortalidade infantil, analfabetismo, miséria, falta de moradia e desemprego não fazem parte da rotina do cubano. Que pode não ter uma vida de luxos e regalias, pode não ter TV de LCD ou um Corolla na garagem, mas olhe para o seu próprio umbigo: quem aqui tem?

Dispa-se de seus pequenos desejos de consumo e responda, com sinceridade: se você fosse sua empregada, morando nos confins da periferia, ganhando 500 reais por mês, com filhos na escola pública, assassinatos no boteco ao lado, camelando quatro horas por dia dentro de um ônibus, tendo de pegar fila no centro de saúde, não acharia um país como Cuba uma maravilha?

A imensa maioria dos brasileiros, imensa mesmo, vive muito pior que o pior dos cubanos. Você pode até viver melhor. Eu vivo. Mas a imensa maioria, imensa mesmo, vive muito pior.

Aqui temos democracia, TV a cabo, loja da Maserati, calças Diesel, celular 3G. Podemos ir a Miami sem correr o risco de morrer afogado numa balsa feita em casa. Mas quantos de nós, brasileiros, vivemos integralmente essa liberdade? Quantos de nós podemos passar diante de uma vitrine, desejar algo e comprar? Quantos de nós podem sonhar com algo muito diferente da balsa que embala os sonhos dos dissidentes?

Nossa liberdade é bem relativa. É condicionada ao que se tem. E, para quem não tem nada, muito mais cruel do que as restrições ao ir e vir a que os cubanos são submetidos. Eles, pelo menos, sabem as regras do jogo, e as regras lá são feitas para a maioria. Sua realidade é a da ilha, e é nela que vivem. Com ambições e pretensões bem diferentes daquelas que nos alimentam, nós aqui do lado bonito e feérico do mundo.

E, afinal, quem somos nós para hierarquizar ambições? Quem é você para achar que seu desejo de ter uma Hilux é mais defensável do que o desejo de um cubano de ter uma geladeira melhor? Quem é você para afirmar que o american way of life adotado e defendido pelo mundo ocidental — esse estilo de vida que permite e aceita a degradação do ser humano miserável, que estimula a competição e que fecha os olhos para a violência diária contra os que não deram a sorte de ter o que você tem — é mais humano que a simple life de um povo como o cubano?

Na verdade, quem somos nós para falar de Cuba? Quem somos nós para troçar de Fidel? Quem somos nós para caçoar dos prédios decrépitos de Havana? Que país nossos pais nos deixaram, e que país estamos deixando para nossos filhos? Podemos nos orgulhar de alguma coisa? Podemos nos orgulhar de ter construído, com nossos meios e nossas mãos, uma nação onde as pessoas têm as mesmas chances, onde todos têm direito a uma escola, a um médico, a um trabalho?

Cuba pode. Nós fracassamos, eles venceram.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Guanabara e Libertadores

Na quarta passada, começou a Libertadores 2008 para o Flamengo. O jogo, o Flamengo foi bisonho: um empate safado contra o Coronel Bolognesi (quem?!). Resultado devidamente debitado na conta do Joel. Para compensar, ontem vencemos a semi-final da taça Guanabara, jogando contra aquele time. Aliás, como já é mais que hábito em partidas decisivas entre os dois clubes. Do jogo de ontem, ficou claro que – se o Joel deixar o time jogar como deve – o Flamengo pode fazer uma bela participação na Libertadores e no Brasileiro que está por vir.

Para comemorar a vitória de ontem e tentar inspirar Joel e o time para a copa continental, segue um texto enviado pelo amigo Jefferson. O texto é longo, mas vale a pena.

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Final da copa Libertadores da América
(Francisco Moraes e José Carlos Nascimento)

Quando ganhamos do Cobreloa, no Rio, começamos os preparativos para a segunda partida, em Santiago. Corremos atrás de patrocínio e batemos de frente no muro. Nada de patrocínio e o Cláudio enlouquecendo.

Ele alugou um ônibus e não conseguia fechar as contas porque todo mundo queria ir, mas grana que é bom, necas. (...) O Cláudio teve que vender o carro às pressas, no dia da viagem, porque a empresa queria 50% de sinal e o restante na volta. Foi um sufoco. Nós fizemos uma vaquinha e completamos a quantia necessária. Ficou então combinado que a excursão sairia segunda feira, às duas da tarde, da porta do Maracanã.

Na hora da viagem o Cláudio só deixou embarcarem os torcedores que, além da passagem paga, tinham o mínimo de dinheiro para se manter no Chile. Só embarcaram 28. (...) No ônibus estavam Gustavo Villela, José Carlos Nascimento - que se tornou meu companheiro inseparável de viagem -, tia Laura (da Charanga), Beto (presidente da União da Ilha), Loyola e outros de quem não consigo lembrar o nome. Aliás, a presença do Beto fez do samba da Ilha o hino oficial da caravana.

“É hoje o dia da alegria e a tristeza não pode pensar em chegar...”

Saímos por volta das três da tarde, diretamente para Santiago. O plano era chegar quinta-feira, véspera do jogo, descansar e assistir a partida com conforto, sem corre-corre. Pedimos ao Domingo Bosco que comprasse os ingressos (pagamos!!!). Até Mendoza (Argentina) tudo correu bem. Viagem cansativa mas sem maiores problemas (...).

De Mendoza pode-se ver toda a imponência da Cordilheira dos Andes. Começamos a subir e nosso ônibus não agüentou. Putz!!! Conserta daqui, mexe dali, fomos obrigados a voltar para a cidade. Isso atrasaria a viagem em um dia e nos obrigaria a sair correndo para Santiago em cima da hora.

No dia do jogo, bem cedo, embarcamos para Santiago. Eram 6 da manhã e a viagem seria de 6 horas, o que deixava tempo para fazer alguma coisa. Subimos a cordilheira, mas o ônibus quebrou de novo, nos deixando a mais de três mil metros de altitude. Para nossa sorte, vinha atrás um ônibus argentino, que ia para Santiago. Conversa vai, conversa vem, todo mundo pulou para dentro.

Já eram 18h30 quando, finalmente, chegamos a Santiago (o jogo era às 20h). Corremos para o hotel do Flamengo, mas a delegação já havia saído. Todavia, o Bosco tinha deixado o recado: os ingressos estavam na bilheteria do estádio, à nossa disposição. Fomos para o estádio, com uma fome de matar leão e (...) nossos lugares eram bem no meio da torcida deles.

O Estádio Nacional pulava, cantava, tremia... E a gente apanhava, apanhava, apanhava... Levamos porrada, cusparada, beliscão, puxão no cabelo (e olha que a polícia estava nos protegendo). A única coisa de que gostamos foi quando eles começaram a jogar laranjas, bananas, uvas. Era pegar, limpar e comer. Com a fome que estávamos, melhor só se eles tivessem jogado filé, batata frita e arroz.

Perdemos o jogo, que foi uma verdadeira batalha campal. Os jogadores do Flamengo saíram do gramado como se tivessem participado de uma guerra na Palestina. O Mário Souto (zagueiro do Cobreloa) jogou com uma pedra na mão. Quebrou as cabeças do Adílio e do Lico. Foi terrível. O pior de tudo é que agora tínhamos que sair dali direto para Montevidéu, campo neutro, onde seria realizada a partida decisiva. Por sorte, nosso ônibus estava consertado e aguardava a galera na porta do estádio.

Saímos do estádio escoltados pela polícia que, por vício, sentava o pau em qualquer chileno que chegasse perto. Entramos no ônibus e fomos para um restaurante fora de Santiago, comer alguma coisa e planejar a viagem para o Uruguai. No fundo, no fundo, não estava nos planos de ninguém esse alongamento da excursão. Ficou decidido que voltaríamos de ônibus até a fronteira entre Argentina e Uruguai. Ali, o ônibus voltaria para o Brasil, levando quem não podia ou não queria continuar a viagem. O resto cruzaria a fronteira e seguiria por conta própria para Montevidéu.

Havia muita tensão no ônibus (...). Com a inesperada extensão da viagem, só quem tinha dinheiro ou poderia conseguir no Uruguai continuaria. Foi uma choradeira só. Imagina! Os caras estavam há seis dias no maior sufoco e na hora do filé... Nos despedimos dos que voltaram prometendo a vitória a qualquer custo. Do grupo original só ficaram 15. Atravessamos a fronteira de balsa e, imediatamente, pegamos um ônibus para Montevidéu. O jogo era na segunda-feira à noite, e nós chegamos domingo, no final da tarde.

(...) À noite fomos ao hotel da delegação e o Bosco (sempre ele) nos deu ingressos para o jogo. Foi uma noite tensa, pelo cansaço e pela emoção da decisão. Ninguém admitia perder. Nós tínhamos mais time, mas os chilenos bateram tanto em Santiago que deu medo do Flamengo se intimidar.

E começaram a chegar vários flamenguistas que tinham vindo ver o jogo. Três aviões lotados. Muita gente de carro, principalmente da fronteira. A cidade começou a ficar vermelha e preta. A alegria retornou. Na segunda-feira, hora do jogo, devíamos ser aproximadamente uns três mil.

(...)

Estava todo mundo tenso, estressado, cansado e duro. Nem a chegada de outro grupo de torcedores, em quatro aviões fretados, melhorou o nosso astral. Estávamos há uma semana sem dormir direito, com uma alimentação sofrível e ainda tendo que esperar pela decisão.

Apesar de tudo, estávamos confiantes. Afinal, tínhamos o melhor time do planeta: o melhor jogador do mundo e, para mim, o melhor que já vi jogar (e olha que eu vi Pelé, Maradona, Platini, Sócrates, Rivelino, Tostão...); um goleiro que deveria ser titular da Seleção (Raul); Leandro e Júnior, os melhores laterais do mundo; uma zaga de nível de Seleção (Marinho e Mozer); e, do meio campo pra frente, era até covardia – Andrade, Adílio, Tita, Nunes e Lico. No banco, jogadores de categoria e nosso técnico Paulo Cesar Carpegiani que, como jogador, depois do Zico, não vi melhor no Brasil. Como técnico, era um discípulo de Coutinho. Por trás de todos esses craques, o homem que era presidente, supervisor, auxiliar técnico, massagista etc.: Domingo Bosco. Como perder, irmão? Impossível.

A torcida uruguaia era toda nossa. Havia também uns cinco mil argentinos flamenguistas. Para o lado do Chile, nem quinhentos gatos pingados. Começou o jogo e, com um minuto, o Andrade dividiu com um chileno e isolou a bola, que foi parar em Santiago. Eu olhei para o Zé Carlos, que estava do meu lado, e disse:
- Zé, o time tá mordido, vamos meter uns três neles.

E o Zé, que nunca foi muito católico, olhou para o alto, como se rezasse, e falou, com os olhos cheios de lágrima:
- Tomara, Moraes, tomara. Se a gente perde esta, vai ser duro de agüentar. Volto a pé.

(No ano seguinte, quando perdemos para o Peñarol, em pleno Maracanã, o Zé só foi embora uma da manhã, expulso pelo guarda que fechou o estádio. Andou até o Leblon! Se perdêssemos aquele jogo, era bem capaz dele querer sair andando até o Rio, sim.)

A razão da minha confiança era justamente a disposição do Andrade. Aprendi a ver nele o termômetro do Flamengo. Andrade era um jogador altamente técnico, acima da média. Se no começo do jogo ele entrasse rachando ou dando chutão para onde o nariz apontasse, aí o time todo jogava sério. É que as jogadas começavam com ele no meio campo. Se rebolasse, a coisa ia ficar ruim (...).

A pancadaria começou cedo e um chileno foi expulso. Metemos o primeiro (Zico). O Andrade se excedeu e também foi expulso. Mas em nenhum momento tive medo de perder a partida. Pelo menos, até o juiz anular um gol nosso e começarmos a perder muitas oportunidades. Aí, comecei a me preocupar, até que o Zico fez aquele gol de falta, no finzinho do jogo. Detalhe: na hora do gol do Galo, nossa galera, ao invés de gritar de felicidade, se abraçou e começou a chorar... O estádio Centenário todo pulando, gritando “é campeão!” e nós sentados e chorando. A galera sequer viu o soco do Anselmo no Mario Soto.

Depois do desabafo entramos na folia, comemorando o título nas ruas de Montevidéu, ao som do samba da Ilha.

“É hoje o dia da alegria e a tristeza não pode pensar em chegar...”

Fizemos nossa festa na cidade, com buzinaço, grito e alegria inimaginável! “OBRIGADO SÃO JUDAS TADEU. OBRIGADO MEU DEUS”. A gente não cabia de felicidade. Porra, o meu Mengão era Campeão das Américas. Cantamos até às quatro da manhã. Aí, caiu a ficha! Tínhamos que voltar para o Rio, de “ônibus”, que saía para Porto Alegre via Chuí. De Porto Alegre, outro para o Rio. Seriam, aproximadamente, 60h. Somente a alegria nos dava força para agüentar a barra. Nego não agüentava mais segurar nem um tamborim. O cansaço era insuportável, mas tínhamos vencido a Libertadores, e agora era uma questão de honra ir a Tóquio, ver o Mundial. A América do Sul era nossa. Só faltava o Mundo!!!

Depois de 400 dias dentro de ônibus, finalmente chegamos a Porto Alegre, após uma viagem que parecia ter durado um mês. O pior é que, de ônibus, estávamos ainda a 24 horas do Rio. Nisso, o Zé Carlos me chamou num canto e disse:
- Moraes, não dá mais. Estou morto. Vamos para o Rio de avião?

Eu estava com o mesmo pensamento, mas como abandonar o barco? Como largar a galera? Pensei mais um pouco e chamei o Zé e o Cláudio.
- Zé, vamos juntar toda nossa grana com a da galera e ver quantas passagens de avião podemos comprar, topas?
- Claro, era isso que estava pensando!!!

Chamamos a galera e, conta daqui, junta dali, completa aqui, intera ali, deu para comprar todas as passagens. Não dava nem para acreditar que seria verdade. Que, dentro de 2h30, eu estaria em casa. Na praia...

Pegamos a grana e fomos ao balcão comprar as passagens; aí, ouvimos a voz da burocracia nacional:
- Lamento dizer, mas o vôo foi cancelado por falta de passageiros. Eu sou colorado, e quero ver vocês irem a pé para o Rio de Janeiro.

A princípio, pensávamos que era uma brincadeira, de muito mau-gosto, por sinal. Mas era sério: a Varig tinha cancelado o vôo. Protestamos, esperneamos, ameaçamos brigar e nada. Enquanto isso, calado num canto, o Zé Carlos assistia a tudo. Num certo momento, ele se vira e vai em direção a uma cabine telefônica. Uns minutos depois ele volta, mais quieto ainda, e me diz:
- Moraes, sai de perto da confusão e vamos ver como o Brasil funciona.

Sem entender nada, perguntei:
- O que você quer dizer com isso?
- Liguei para a minha avó, no Rio, e pedi uma mãozinha. Ela ainda conhece umas pessoas na Varig e o sobrenome ainda vale alguma coisa (o avô do Zé era um general grandão, que chegou a ministro e disputou a Presidência da República com o Gal. Médici).

Não demorou muito o burocrata colorado, muito a contragosto, chamou o grupo:
- O voô foi reaberto, vocês podem comprar as passagens e embarcar - falou, cheio de gentilezas.

Que babaca. Nós saímos rindo da cara dele. Embarcamos e 3 horas depois eu estava no calçadão, contando a aventura pra galera.

No dia seguinte, já estávamos embarcando para Volta Redonda – decisão do terceiro turno do Campeonato Carioca. Continuamos a colecionar títulos e fomos Campeões Cariocas, batendo o Vasco em três partidas memoráveis. Antes, tivemos que testemunhar a morte do grande Capitão Cláudio Coutinho, o maior técnico que o Brasil já teve.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Samba S/A

Fiz uma provocação no post anterior, mas ninguém deu bola. E daí? Daí que o blog é meu, escrevo o que quiser – inclusive respondo à minha própria provocação.

É claro que dizer que as escolas que não são do Rio não deviam participar do carnaval da cidade é uma enorme tolice. Se competentes, não apenas devem permanecer, mas vencer como fez a Beija-Flor, de novo, este ano. O problema é outro: o que é competência?

“Super Escolas de Samba S/A, super-alegorias escondendo gente bamba, que covardia!”. Quando, em 1982, o Bumbum paticumbum prugurundum, de Aluízio Machado e Beto Sem Braço, empurrou o Império Serrano para o seu último título, ninguém deu muita atenção à denúncia que faziam.

Império Serrano, 1982 (foto: arquivo)

E a história das super escolas e super-alegorias começou justamente na Beija-Flor, no tricampeonato conquistado entre 1976 e 1978, sob o comando de Joãozinho Trinta. Hoje, a escola de Nilópolis é bi e vencedora de cinco dos últimos seis carnavais (foi vice para a Vila Isabel em 2006). Fantástico? Sem dúvida. Alguém lembra de algum detalhe desses desfiles?

Pois o jornalista e compositor Lula Branco Martins, em artigo para o site da Coluna do Ancelmo, lançou um bom tema para se discutir: a “interessância”. A palavra não existe, mas o conceito é fácil de entender.

Vejam, quando a Imperatriz papou um monte de títulos na década de 90, dizer que tinha realizado desfiles tecnicamente perfeitos era quase uma crítica. Hoje, virou elogio. Pois me digam, se alguém é capaz, qual o interesse provocado pelo desfile da Beija-Flor? Em que a Beija-Flor foi emocionante? E esse é o meu ponto.

Por exemplo: no quesito comissão de frente, do meu ponto de vista, Mangueira (Frevo), Imperatriz (Marias) e Portela (água, na primeira parte do desfile sobre a recriação da vida) foram as mais bem contextualizadas. As três perderam muitos pontos. Qual é o critério afinal? Luxo e apenas isso?

Beija-Flor 2008 (Fotos: EFE, Ivo Gonzalez e Luis Alvarenga)

Não acredito que uma escola que pouco usa suas cores possa vencer o carnaval com tanta facilidade. A Beija-Flor quase não usou azul!!! Verdes e vermelhos em profusão... Será que no quesito conjunto, a utilização das cores da escola não é um critério de avaliação?

Não é possível que a campeã do carnaval seja definida apenas por tecnicalidades. Não acho correto que uma escola que passe quadrada, com ritmo marcado pelo metrônomo, vença outra que emocione a platéia. A questão não é acabar com a disputa, mas não trancá-la em uma caixa preta de quesitos e, principalmente, critérios aos quais apenas os jurados têm acesso e nem sempre usam. Do jeito que está, a coisa virou apenas um jogo de sete erros.

Do jeito que as coisas estão hoje, desfiles históricos (como da Caprichosos de 1985, com “E por falar em saudade” ou “Bumbum de fora pra chuchu”) pela criatividade e encantamento nem participariam do desfile das campeãs. Que dirá, disputar o título.


Caprichosos de Pilares, 1985

Enfim, é necessário criar uma maneira de fazer a interessância, essa palavra que não existe, ter algum peso nos desfiles. Ou vai perder a graça. Não porque a Beija-Flor vença todo ano, mas porque a emoção vai desaparecer, vai ficar tudo automatizado. Se um espetáculo não me emociona, não vou assisti-lo, não pagarei pra vê-lo. É preciso, antes que isso aconteça, re-pacionalizar (isso existe?) as escolas de samba.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Vai começar o ano

Acabou o reinado de Momo e agora começa aquela parte do ano, entre carnaval e reveillon, que é um saco. Quer dizer, o ano vai começar pra valer. Com um dia a mais, quase nenhum feriado, olimpíadas e eleições pra prefeitos e vereadores.

Mas esse post ainda é de carnaval, ou melhor, de cinzas.

Já passei carnaval no Espírito Santo, na Bahia, em Pernambuco e Santa Catarina (é, no sul ao som de reggae, já fui excêntrico mesmo sem ser milionário). Pois que me desculpem todos, não tenho necessidade nenhuma de ser politicamente correto: carnaval, de verdade, é no Rio. O resto é pinto.

Apesar da chuva quase o tempo todo, a festa no Rio não parou. Os blocos estavam cheios e as escolas fizeram um desfile bem razoável (sem empolgar muito). E mesmo sem paciência pra ficar encharcado, deu pra aproveitar um bom bocado. Abaixo, algumas imagens (como não saí muito, nem todas as fotos são minhas) que gostei.


Na sexta, o tempo abriu e trouxe a esperança de um carnaval daqueles...

Na Rio Branco, carnaval à moda antiga, com marchinhas e sambas antigos no Embaixadores da Folia

No Rio, tem bloco pra todos os gostos (Banda de Ipanema / Mônica Imbuzeiro)...

...e idades (Bagunça Meu Coreto / foto: Fabiano Rocha)

Não pára nem no carnaval: “raça, amor e paixão”. 4 a 0 no América.

“A mesma máscara negra que esconde o teu rosto, eu quero matar a saudade... Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”

Chove chuva, sem parar

Cumpriram a promessa de aumentar o policiamento no carnaval. Parece que os homens de farda gostaram muito. (Foto: Mônica Imbuzeiro)

Sem desfilar, Sapucaí pela Globo. Transmissão trágica.

Cama, cobertor e um clássico: não falha.

Na terça gorda, a chuva deu uma trégua rápida e a despedida de Momo foi na Vila, com o Sorri Pra Mim: “singela manifestação de samba e cultura”.




Escolas de Samba

A Vila é o berço do samba. Mas trouxe um arremedo de samba estapafúrdio, que devia ser proibido de tocar. Mesmo assim, fez um lindo desfile, até que o último carro quebrou. Mas vejam que lindo casal. (Foto: Agência EFE)
Sou do tempo em que as escolas se orgulhavam e desfilavam com suas cores. Alguém sabe dizer quais as cores da bicampeã? (foto: Ivo Gonzáles)


E alguém não sabe que escola é essa? (Foto: Agência EFE)
A Imperatriz trouxe o melhor samba do ano, disparado. E fez um belo desfile. Além disso, ela voltou... (Foto: Agência EFE)

A Portela ressurgiu e fez, na opinião de todo mundo (menos os jurados) o melhor desfile de 2008. Alguém tem dúvidas de que suas cores são azul e branco? (Foto: Fábio Rossi)


Baianas de verdade, de branco e com as cores da escola. Salve Império. Também voltou. (Foto: Divulgação • Prefeitura do Rio)


PS 1: Como já disse, não tenho a menor vocação para o que é politicamente correto. Enfim, gostaria de saber porque não há um desfile das escolas de samba do Grande Rio. Já imaginaram? Arquibancadas na Via Ligth, em Nova Iguaçú, ou em Icaraí, na beira da praia em Niterói. Aí, escolas como Beija-Flor, Viradouro, Grande Rio e Porto da Pedra, entre outras, deixavam o carnaval carioca em paz. E Império, Caprichosos, Ilha, Estácio e todas as outras Escolas de Samba de verdade, com história e tradição, voltariam a fazer do carnaval do Rio um verdadeiro carnaval do Rio.

PS 2: Onze escolas do carnaval carioca não são cariocas. Dá pra fazer dois dias de desfiles, 1º e 2º grupos, enfim, dá pra ficar bem legal. São elas: Sacramento (São Gonçalo) e Imperial (Nova Iguaçu) - grupo E; Sossego (Niterói) - grupo D; Leão de Nova Iguaçu e Ponte (São João de Meriti) - grupo C; Inocentes de Belford Roxo - grupo B; Cubango (Niterói) - grupo A; Beija-Flor (Nilópolis), Grande Rio (Duque de Caxias), Porto da Pedra (São Gonçalo) e Viradouro (Niterói) - grupo Especial.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Se contar, ninguém acredita...

EXTRA DE CARNAVAL!!!

Esses homens estão instalando pilares de ferro numa calçada de concreto em Lisboa, para impedir o estacionamento de carros em frente a um bar. No flagrante desta foto eles estão limpando e terminando o trabalho. Olhe atentamente a foto e responda a pergunta abaixo dela:



Quanto tempo você acha que vai levar para eles perceberem onde está estacionado o furgão deles?


Enviado por José Carlos Roque, Roque, Rial ou Dundum, como preferirem