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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Andei pensando...

Se tiver algum louco suficiente para visitar todos os posts desse blog, vai perceber várias coisas interessantes. A começar pela data da primeira postagem: 25 de junho de 2007. Ou seja, cheguei muito tarde nesse mundo estranho, onde se encontra de tudo um pouco, chamado blogosfera.

E sem sequer imaginar onde eu estava pisando, comecei um blog e passei por várias fases, algumas mais longas outras mais curtas, como qualquer adolescente fazendo descobertas. Até, como diz uma das três moças que vivem comigo, o ‘querido diário’.

E como os amigos que dispensam alguma atenção também podem imaginar, esse negócio meio que encheu o saco. Ou a última postagem não seria de fevereiro deste ano.

Encheu o saco e comecei a pensar, pensar, pensar... Podem acreditar, sou capaz de pensar muito. O que não quer dizer que isso resulte em algo realmente útil. Mas no final, vale o consolo: eu tento!

Se, dessa vez, o resultado será útil ou não, vamos descobrir com o tempo. Na prática, mudando de endereço web. E essa mudança também pretende ser de conteúdo. Mais do que simplesmente falar sobre o que aconteceu ou contar alguma história (para mim, pelo menos) interessante, vou começar a escrever sobre o que penso.

Sobre tudo, ou quase tudo. Então, no que se trata do Flamengo, ainda vou derramar minhas expectativas sobre o escrete fabuloso. Meu pai, por exemplo, costuma dizer que sou como um profeta do apocalipse, por sempre esperar o pior. Também estarão lá o Picareta, meus livros e discos, filmes, TV, carreira e, por que não, meu quase analfabetismo digital.

Enfim, vou tentar ser mais (pelo menos um pouquinho mais) autoral, como exige essa web 2.0 que estou tentando desvendar.

Esse blog ficará guardado como lembrança, afinal há algumas histórias realmente boas por aqui. Mas já deu. E a nova casa é o Andei pensando. Sejam bem-vindos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Eu tremo, tu tremes, mas o u não tem trema mais

E viva a internet. Pelos motivos óbvios, claro, que não estou aqui para elucubrar. A possibilidade de encontrar coisas e pessoas que sem a rede seria impossível é sensacional.

Pois olhem que estou, desde que ouvi falar a respeito e – principalmente - desde que entrou em vigor, querendo falar a respeito da maravilhosa, sensacional, imprescindível, fundamental reforma ortográfica. E não sabia como, sem o risco de cair no óbvio. Pois rodando por aí, de site em site, de blog em blog, encontrei o Interligue-se, da Nathália Pimentel. Nele, os textos abaixo. Um deles da própria e o de baixo, que li com gosto, do Daniel Gavin (desse, não encontrei link, blog ou quetais).

Do que a Nathália escreveu, concordo em gênero, número e grau, no que diz respeito às crianças. No que me diz respeito, resolvi me rebelar. E se, por ofício, não posso ignorar a reforma, assumo o compromisso de usar o trema para todo o sempre. E, quem sabe, fazer meu filho (ou filha)- que um dia vai chegar – entender que lingüiça não é linghiça. Espero que gostem.

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Hoje não vim deixar um texto meu.

Vou apenas deixar minha opinião sobre a Reforma Ortográfica da Língua: Acho uma total falta do que fazer.

Se o acento é diferencial, é para diferenciar. Por que sumir com ele? Se o trema é pra dar som ao 'u', coloque-o lá. Tadinho do bichinho, o que foi que ele te fez?

Não concordo que isso vá facilitar a vida de alguém, sinceramente. Principalmente na fase da alfabetização. Diz pra mim como explicar ao meu filho, de 6 anos, que na palavra 'quente' o 'u' não tem som e na palavra 'cinquenta' tem. "Qual é a diferença, mamãe? Como vou saber quando ele vai ter som e quando não vai ter?" A resposta, meu filho, era o trema. Agora vai ser como todo o resto: decora. E quando não souber... fala errado mesmo. É assim que o povo faz e, pelo visto, acha bonito.

Ahh... e você, meu amigo das salas dos cursinhos preparatórios, trate de buscar seu guia ortográfico o mais rápido que puder e comece a decorar as novas regras [e as suas exceções]. Sabe aquelas que você passou anos da vida decorando para aquele concurso público tão esperado?? Esqueça-as! Isso aí... fizeram o favor de jogá-las no lixo e confundir ainda mais a sua cabeça! E como um grande alento... ainda te deixam 'errar' até 2012. Olha como são legais!

Peço sinceras desculpas para quem é de opinião contrária. Mas eu precisava deixar bem clara a minha insatisfação com essas mudanças sem pé nem cabeça.

Deixo aí pra vocês um texto de Daniel Gavin, talvez sirva para compreenderem um pouco a minha opinião. Porque quando eu li, percebi que a indignação dele tem algo de familiar para mim.


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"Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando
çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar.

Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Daniel Gavin"


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E aí? Preparados para enfrentar esse futuro?Devo confessar que eu não vou me acostumar... e me sinto feliz por isso.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz 2009!

Começo a escrever esse texto às 18 horas de 31 de dezembro de 2008. Mais em cima da hora é quase impossível. Mas ainda dá tempo de desejar um feliz ano novo para todos.

No seu artigo de hoje, no Globo, o Zuenir Ventura diz que 2009 já começa vencendo por sua originalidade pois, graças à crise, nenhum ano foi tão mal falado antes mesmo de começar. Talvez tenha razão, ainda não dá pra saber.

A verdade é que, feliz ou infelizmente, 2008 está quase quase. Então, ta na hora de deixar pra trás a marolinha do Lula, a derrota do Gabeira, a barriga do Cabanas e tudo o mais que perturbou nossa vida neste ano. Também é hora de aproveitar para pedir desculpas a todos pelas falhas que cometi. E, apesar de a maioria delas ter sido involuntária (como não lembrar de ligar para dar parabéns ao Gabriel e ao Caius nos dias 23 e 25 de julho ou nem sequer procurar o grande amigo Zé Carlos que, lá em Portugal passou aperto com seu braço, para desejar melhoras), reconhece-las é o mínimo que se deve fazer.

Voltando ao texto do Zuenir e ao ano que vai começar, é que - se há algo que aprendi no mar – previsões são apenas isso: previsões. Então, nada de desespero. Para a marolinha que está se transformando em onda, peguem as pranchas e se preparem para pega-la. Para a derrota do Gabeira, vamos usar nosso bom humor, persistência e paciência para aturar o Eduardo e seus ‘eduardinhos’. E contra os ‘Cabañas’ que há por aí, voltemos à arquibancada para empurrar nosso escrete. Uma hora a vitória acontece.

A todos os amigos os tradicionais desejos de saúde e força para enfrentar mais um ano. Que todos tenham muito mais motivos para sorrir do que para fazer bicos ou abrir berreiros; que todos tenham dinheiro para saldar suas dívidas, matar suas vontades e – tomara - ainda guardar um pouquinho; que os laços sejam mantidos e que os nós sejam desatados. Enfim, que o vento seja forte e nosso barco bem seguro para seguirmos em frente, vencendo as correntes contrárias e superando as tempestades.

Feliz 2009!

sábado, 8 de novembro de 2008

Os domingos e o vento

“Que domingo é hoje?” A primeira vez que um de nós fez essa pergunta, estávamos – eu, Armando, Sérgio e Pimenta – a aproximadamente sete nós de velocidade, mais ou menos às dez da manhã de terça-feira, fazendo a travessia entre Ilhabela e Santos. Estávamos a bordo do Fandango, o veleiro no qual a Equipe Boteco 1 – faria sua primeira participação na Regata Santos-Rio.

Seríamos sete tripulantes, sete estreantes na regata oceânica mais tradicional do Brasil. A história dessa participação começa agora, em uma espécie de diário de bordo.

1º domingo: terça-feira, 21 de outubro
Na verdade, o início foi na segunda à noite, embarcando com o Armando para Ilhabela. Chegamos a São Sebastião às seis da manhã e fomos direto para balsa que nos levaria à ilha. Tempo fechado e muito vento. Leste. Apesar do tempo ruim, vento favorável para a travessia de 60 milhas (mais de 110km) até Santos.

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela. Foto do Pimenta.
Pimenta já estava a postos no píer da balsa, pescando enquanto nos esperava. Enquanto isso, Sérgio já fazia os últimos preparativos a bordo do Fandango. O objetivo era sair o mais cedo possível para chegar ao Iate Clube de Santos (que fica no Guarujá) com dia claro. Deixamos a poita e motoramos até o final do canal. Pouco mais de 20 minutos.

Velas em pé, o sol apareceu e eu aproveitava para conhecer o barco, entender seu comportamento, suas reações. Durante a viagem, conseguimos manter velocidade média próxima de sete nós. Com o balão em pé - por um bom tempo com armação tri sail -, o barco voava e tivemos pico de 9,6 nós (18km/h).

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou...
Na chegada a Santos, velas pra baixo e motor para entrar pelo canal que leva ao maior porto do Brasil e ao clube. “Porta a porta”, 10 horas. Do clube direto para o hotel e o encontro com a presidente para nosso primeiro jantar. Pergunta daqui, pergunta dali, tem um restaurante logo ali. Depois de seis quadras, encontramos as portas fechadas e acabamos voltando para o restaurante que fica em frente ao hotel. Depois de comer, cama.

Por enquanto, a previsão para o final de semana da largada era de vento a favor, variando entre 6 e 8 nós.

2º domingo: quarta-feira, 22 de outubro
Acordei por volta das 9h, com o ronco do Oscar. Ele chegou ao Guarujá às 6h30 e foi direto para a cama. Quando eu e Armando abrimos os olhos, ele já estava dormindo e nós nem o vimos entrar no quarto. Nosso objetivo ao chegar a Santos três dias antes da largada era treinar e nos acostumar o máximo possível com o barco.

Nossa manhã foi meio burocrática: dar entrada no clube, fazer a inscrição, ler a instrução de regatas e conferir todas as exigências. Algumas delas não eram cumpridas pelo Fandango e tratamos de resolvê-las. Liga para o Rio para providenciar alguns itens e outros detalhes, corre na farmácia pra montar o kit de primeiros socorros, acha um capoteiro para fazer uma linha de vida... Enfim, correria total.

Nossa programação para o dia era o treino noturno. Como não achamos um lugar legal para almoçar, resolvemos comer no clube. PQP!!!! A pedida foi bife a cavalo para quase todos. Recebemos um “bife à pônei”... E depois do lauto almoço que não deu nem pra tapar os buracos dos dentes, todos a bordo.

Auto-explicativo (tem hífen?)
Saímos do clube quase às cinco, ainda com muito sol e um calor da porra. Lá fora, merreca. Mesmo assim, com o secretário (eu) e os dois proeiros (Oscar e Pimenta) no barco, começamos a realizar as manobras: camba para um lado, camba pro outro, sobe balão, desce balão, jibe pra lá e pra cá, pilling de genoa. Com dia claro e escuro. Já quase às nove, começou a ameaçar chuva. E como não precisávamos molhar o barco à toa nem arriscar pegar uma gripe, sobe o balão e toca para o clube.

No início do dia, a previsão ainda indicava vento a favor durante todo o final de semana, variando entre 4 e 5 nós. À noite, começamos a enxergar a merreca...

3º domingo: quinta-feira, 23 de outubro
A manhã da véspera da largada nos trouxe mais um tripulante e um monte de outras tarefas. Mas nossa preocupação era o vento. Ou a falta dele. A previsão que vimos enquanto tomávamos café da manhã transformava a ameaça de merreca em certeza. Ao mesmo tempo, nos dava uma esperança: lá fora, longe de terra, uma pequena (muito pequena, na verdade) frente subia a costa e podia nos empurrar para o Rio. Se conseguíssemos estar onde deveríamos na hora certa, teríamos grande chance de brigar até pela vitória.

Igor nos encontrou no clube. Agora só faltavam Humberto e Morcegão. Saímos para treinar logo cedo, pois precisaríamos fazer as compras para abastecer o barco na parte da tarde. Ficou acertado que o jovem estoniano de Campinas faria a secretaria, alternando os turnos comigo. Aproveitei para deixar ele trabalhar bastante e se acostumar com a função. Se todos eram estreantes na regata, o caso do Igor era mais grave, pois só tinha velejado duas vezes na vida. É ou não uma bela maneira de começar de verdade?

Na água, tudo normal e depois de três horas e meia, voltamos para o clube. Da estrada, recebi uma ligação:
- Bom dia meu secretário!
- Cadê você comandante?
- Cambando pra comissão...

Aqui é bom abrir um parêntese antes que vocês me imaginem tomando notas ou sentando no colo do chefe. A secretaria (ou o meio do barco) é de onde desembocam e se regulam todos os cabos do barco, com exceção das escotas.

Paramos para almoçar no boteco na porta do clube. Santa comida da mamãe!!!! Arroz, feijão, salada, ovos, farofa e carne que não acabava mais. Morcegão chegou a bordo da viação La Torre, pouco depois da nossa presidente, coordenadora e única operária da nossa equipe de terra, ClauPenPen. Para encerrar com chave de ouro nossa concentração para a prova, 20 garrafas sobre a mesa.

À tarde, supermercado e abastecimento do barco. À noite, nossa extraordinária com as presenças dos sete tripulantes (Humberto chegou!), Armando (que nos treinou e correu no Viva), La Torre e Helô, Claudia, Clícia e Guta, e Nio. Estávamos prontos.

4º domingo: sexta-feira, 24 de outubro

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar. Foto do Jorge Somers.
É hoje!!! Teve gente que dormiu mal. Teve gente que acordou no meio da madrugada, como se já estivesse fazendo turno embarcado... Ansiedade e adrenalina é assim mesmo. Chegamos cedo no clube e encontramos o redivivo Jorge Sommers, que foi nos dar um abraço e deixar sua energia boa. Últimos preparativos, embarque e toca pra linha de largada.

A previsão era a mesma. Muita merreca e toca pra fora pra tentar encontrar aquela pequena frente... A tripulação consultou três sites e ainda confirmou tudo com nosso navegador, que estava afundado em mapas e previsões em sua base de BH.

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos. Foto do Marcio Finamore.
Largamos com um ventinho até razoável e, com média de quatro nós de velocidade, andamos umas 25 ou 30 milhas. Comandante Sérgio fez questão de que todos a bordo timoneassem pelo menos meia hora, para se acostumar com barco. Fui o último da série e anoiteci no leme. Como gostei da brincadeira, fui ficando até o vento e o dia acabarem. Aí...

5º domingo: sábado, 25 de outubro
Nosso sábado começou, na verdade, quando o vento acabou cerca de uma hora depois do anoitecer de sexta-feira. Como disse, o Sergio fez com que todos timoneassem o barco por, pelo menos, meia hora após a largada. Eu fui o último e anoiteci no leme. Pra mim, tudo era novidade. Nunca velejei no leme em regata. Raramente, voltando para o clube ou indo para a raia. E agora, já estava levando o barco de dia e de noite.

Sinceramente, não fiquei preocupado se estava fazendo bem ou mal, apenas tratei de aproveitar a chance de aprender mais alguma coisa.

Era mais ou menos 9 da noite, quando o vento parou de vez e pedi para alguém me substituir. E se falo que o sábado começou nesse momento é porque ficamos a noite e o dia inteiro praticamente boiando. De vez em quando, conseguíamos velejar por uma ou uma hora e meia, ficando parado por mais três ou quatro.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.
Alguns momentos podem ilustrar o que aconteceu. Durante a noite, boiávamos de tal maneira e as velas batiam tanto de um lado para o outro que chegamos a baixar a genoa por duas vezes, para poupá-la. A outra curiosidade foi um estranho bate-papo entre a tripulação e um pingüim. Estávamos fritando sob um sol inclemente, sem vento algum que nos desse uma esperança, quando o pobre coitado passou por nós, levantou sua cabeça e nos cumprimentou. Pra quê? De repente, os sete estavam em uma animada conversa, falando fluentemente o pingüinês...

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida...

Tínhamos a promessa daquela pequena frente que entraria no final da manhã. Mas ela não veio. E depois de passar o dia inteiro praticamente sem vento e sob o sol forte, conseguimos renovar nossas esperanças. Já passava das sete da noite, o dia já começava a escurecer, quando o Pimenta olhou pra trás e disse “acho que vai entrar...”.

Junto com uma brisinha, chevou um chuvisco e algumas ondas. Dava pra ver que as nuvens estavam aceleradas, então era questão de tempo. Começamos a nos organizar. Só três em cima, os outros quatro na cabine. Eu estava no leme outra vez... Casaco, cinto de segurança e lá vamos nós. O vento chegou e o Pimenta, com o GPS em punho, começou a cantar a velocidade: 3,5; 4,2; 4,8; 5,2; 5,5; 5,9; 6,1; 6,4 nós!

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.
Estávamos em contravento e aos poucos o 'Fandanguinho' foi adernando. Da cabine, Morcegão surgiu todo pimpão, pronto para usar pela primeira vez a roupa de tempo que, no Rio, não sai do armário. Quando chegamos aos cinco nós, o batcomandante ia soltando a grande quando o Pimenta gritou “Nããããããããããooooooo Morcegão!!!! Ainda falta muito pra ficar difícil”. Lá embaixo, mais um foi a barla para equilibrar o barco enquanto as ondas iam subindo. Todos pensávamos: “agora vai, vamos chegar no Rio”.

Tudo isso durou dez, talvez 15 minutos. De repente, o vento parou de novo e o céu estava absolutamente estrelado... Foi-se, com o vento, nosso fio de esperança.

6º domingo: domingo, 26 de outubro
Às dez da noite de sábado terminou a reunião. Os sete no deck. Fui voto vencido e ligamos o motor. Depois de pouco mais de 34 horas e 62 milhas percorridas (pouco menos de um terço do percurso), o Fandango ligou o motor. Já se passaram duas semanas e ainda não me conformo em não terminar a travessia, mesmo que não chegássemos dentro do tempo para classificar. Regata tem hora para começar e não tem hora para acabar. Estou frustrado até agora, acho que vou ficar assim até a largada do ano que vem...

Estávamos a 75 milhas da costa (139 km) e motoramos por 14 horas em direção a Angra dos Reis. Tentamos comunicar a desistência imediatamente, mas como o rádio não respondia, só conseguimos fazê-lo às oito da manhã.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Por volta do meio dia, na entrada da baía de Angra, ficamos sem combustível e sem vento, mas conseguimos ajuda de um casal de pai e filha, argentinos a bordo do veleiro Paraná. Nos deram dois litros de diesel e foi a conta. O motor morreu na hora de atracarmos no posto de gasolina.

Na marina, arrumamos o barco, tomamos banho, almoçamos e, pelas quatro da tarde, a tripulação se separou. Morcego, Igor, Humberto e este que vos escreve seguiram para o Rio de carro. Sergio, Pimenta e Oscar trouxeram o barco para o Iate Clube, sede do Circuito Rio que disputaríamos no final de semana seguinte.

Elucubrações e outros domingos
No Circuito – felizmente – beliscamos o pódio. Foram mais três domingos especiais. Terminamos em terceiro e, pela terceira vez, o Boteco 1 levou um troféu pra casa. A tripulação do Circuito foi comandada pelo Ricardo ‘Amigo do Lodão’ e formada por Pimenta, Oscar, Lulu (sexta), Morcegão e Alfeu (sábado). Eu também estava lá.

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento. Foto da galeria do ICRJ no Picasa.

Primeiro e segundo colocados foram indiscutíveis. E a briga pelo pódio, com Star Treck e Calamar Rio, uma delícia. Apertada até a linha de chegada da última regata. Dessa vez nós ganhamos. Da próxima, quem sabe. Vai importar, sempre, estar satisfeito por velejar quando chegarmos ao píer.

É claro que velejar com esses caras é algo sensacional. Seu Ricardo é, mesmo quando calado, uma aula de vela ambulante. A amizade entre todos é de emocionar. Eu, não tenho do que reclamar. Apesar de não termos terminado a Santos-Rio, aprendi muito. Sérgio, assim como Ricardo, é um grande professor.

Também não posso deixar de agradecer o patrocínio do SuperCarioca.com, o apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e a parceria do projeto Três no Mundo.

Por hora, beijos e abraços a quem de direito. Ano que vem, a largada será no dia 23 de outubro, por volta do meio dia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os subúrbios e Santos-Rio

Estava mesmo com saudades de escrever. Algo que não seja trabalho, que fique claro. E quase dois meses e meio sem pingar alguma coisa por aqui é muito tempo. Fruto da rotina do emprego e trocentas outras circunstâncias. Por conta disso, já aviso e peço desculpas pelo tamanho do texto.

Nesse tempo todo, se alguma coisa me deixou exasperado é a discussão suburbana que tomou conta da campanha para prefeito do Rio. Voto no Gabeira e declarei isso aqui assim que sua candidatura foi confirmada. E a foto que abre esse post nos mostra, Mariana e eu, em frente à Central do Brasil, no último sábado, quando fomos a uma caminhada em favor do (tomara!) futuro prefeito e que terminou com a doação de sangue do grupo em favor de quem quer precise.
Esse pequeno grupo – pouco mais de 50 pessoas – era formado por jovens e idosos, casais e solteiros, suburbanos e não-suburbanos. E aqui chegamos ao ponto.

Gabeira disse que a vereadora Lucinha tinha uma visão suburbana sobre a questão do aterro de lixo de Paciência. Será que só eu entendi que esse ‘suburbana’, nesse caso, foi usado como antônimo de cosmopolita? Partindo do princípio que não sou mais ou menos inteligente que ninguém, será que estou louco?

Não pretendo escrever um tratado sobre o conceito de suburbano, da sub urbe. Mas para mim ficou claro: não se pode ter uma visão local, limitada, restrita sobre algo que afeta toda a cidade, toda a sociedade: sub urbe, urbe e polis.

Talvez tenha escrito de maneira simples demais, simplória mesmo (e se houver filósofos, sociólogos e antropólogos de passagem por aqui, queiram corrigir e/ou acrescentar). Mas agora quero deixar de tergiversar e olhar para o Rio, para o meu Rio.

Nascido e criado em Vila Isabel (o melhor bairro do mundo!), já morei na zona sul, voltei à Vila e, hoje, estou na Tijuca. Aprendi que subúrbio, por aqui, é bairro onde passa o trem. Assim, temos os subúrbios da Central e da Leopoldina. E o resto é zona (norte, sul e oeste) e Centro.

Pois o Joaquim Ferreira dos Santos escreveu hoje no Globo sobre algo que é absolutamente real no Rio: a alma suburbana não se restringe aos bairros do subúrbio. Permeia toda a cidade. E a estamos perdendo. Coincidência ou não, hoje meu vizinho me pediu a escada emprestada. Vocês têm noção de há quantos anos algum vizinho não me pedia algo? Há quantos anos eu não peço um favorzinho qualquer a um vizinho?

De certa forma, perdemos um bom bocado dessa alma. Se você acha que não, pense sobre quantas vezes você disse ao menos um bom dia para o seu vizinho de porta (não vou nem perguntar por aquele que mora dois andares abaixo de você). Pense qual foi a última vez que você bateu um bom papo com o jornaleiro ou o padeiro. Qual foi a última vez que você ficou de papo, no botequim da esquina, com gente que você só conhece de vista porque, afinal, mora no mesmo bairro?

Então existe duas coisas a tratar: a alma suburbana carioca, que precisa existir e ser estimulada, e a visão suburbana, que nenhum de nós pode ter. Pois meus caros, para apenas começar a tentar resolver os problemas do Rio, precisamos entender que vivemos numa metrópole, em pleno século 21, e precisamos pensar soluções que estejam de acordo.

Agora, suburbano mesmo, é descontextualizar a coisa de tal maneira que tudo seja visto como preconceito. É usar e abusar dessa visão torta na campanha. Porque, assim, a cidade segue partida e mal administrada.

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Hoje à noite parto de viagem para São Sebastião, de onde atravessarei de balsa para Ilhabela amanhã bem cedo, de onde velejarei para Santos a bordo do Fandango. Hoje começa uma semana especial, em que estarei realizando um sonho: correr a regata Santos-Rio, a mais tradicional travessia oceânica do Brasil.

Seremos sete a bordo do barco de 31 pés (pouco mais de 10 metros de comprimento), representando a Equipe Boteco 1, patrocinados pelo SuperCarioca.com, com apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e em parceria com o projeto Três no Mundo.

Será a primeira de quase todo mundo e não temos a pretensão de grandes resultados. O objetivo é participar, aprender e realizar o sonho. Depois disso, vamos tentar a Recife-Fernando de Noronha do ano que vem. E, quem sabe um dia, Cidade do Cabo-Salvador.

A largada da regata será às 12h15 de sexta e vamos antes para treinar e conhecer o barco. Serão 190 milhas (pouco mais de 350km) de vento em popa, segundo as previsões para o próximo final de semana. Se forem confirmadas, nossa previsão de viagem gira entre 30 e 36 horas. Se não, Deus sabe. A intenção é estar aqui no domingo, a tempo de votar.

Torçam por nós.