É possível ter saudade de algo que não se viu, não se viveu? Pois eu tenho. Várias delas. Saudades que se desenvolveram por ouvir falar ou por ler o que andaram escrevendo por aí.Tenho saudades, por exemplo, de Fangio pilotando, dos grandes festivais, de Pelé e Coutinho tabelando... É claro que tudo isso conseguimos assistir em vídeo, ver as fotos etc. Mas, na saudade, há coisas que não se contam: sons, cheiros, olhares, silêncios.
Uma dessas saudades é Mané.
Tenho um amigo que, ao se apresentar como botafoguense, sempre segue a frase: “tive infância”. Não consigo dissociar isso de Garrincha, de suas poucas imagens e das suas muitas histórias.
E graças a essas histórias, não foram poucas as vezes que sonhei estar no Maracanã, de boca aberta na arquibancada, enquanto o Mané deixava dois ou três de bunda no chão. Tantas quantas sonhei estar numa arquibancada da Suécia quando aquele ponta estranho, todo torto, deixou atônito todo o ‘científico’ time da União Soviética para fuzilar Yashin. Sonhos tão absurdamente reais que seria capaz de dizer quanto estava gelado o Grapette que bebi no Maracanã ou o quanto me incomodava a fumaça do charuto vagabundo daquele sujeito de língua estranha sentado ao meu lado na Suécia.

Enfim, faz 25 anos que muita gente, os que viram e muitos que não viram, sente saudade. Domingo, 20 de janeiro de 2008, dia de São Sebastião. 25 anos da morte de Garrincha. Ah, que saudade...
“Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.”
(Carlos Drummond de Andrade)
