E viva a internet. Pelos motivos óbvios, claro, que não estou aqui para elucubrar. A possibilidade de encontrar coisas e pessoas que sem a rede seria impossível é sensacional.
Pois olhem que estou, desde que ouvi falar a respeito e – principalmente - desde que entrou em vigor, querendo falar a respeito da maravilhosa, sensacional, imprescindível, fundamental reforma ortográfica. E não sabia como, sem o risco de cair no óbvio. Pois rodando por aí, de site em site, de blog em blog, encontrei o Interligue-se, da Nathália Pimentel. Nele, os textos abaixo. Um deles da própria e o de baixo, que li com gosto, do Daniel Gavin (desse, não encontrei link, blog ou quetais).
Do que a Nathália escreveu, concordo em gênero, número e grau, no que diz respeito às crianças. No que me diz respeito, resolvi me rebelar. E se, por ofício, não posso ignorar a reforma, assumo o compromisso de usar o trema para todo o sempre. E, quem sabe, fazer meu filho (ou filha)- que um dia vai chegar – entender que lingüiça não é linghiça. Espero que gostem.
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Hoje não vim deixar um texto meu.
Vou apenas deixar minha opinião sobre a Reforma Ortográfica da Língua: Acho uma total falta do que fazer.
Se o acento é diferencial, é para diferenciar. Por que sumir com ele? Se o trema é pra dar som ao 'u', coloque-o lá. Tadinho do bichinho, o que foi que ele te fez?
Não concordo que isso vá facilitar a vida de alguém, sinceramente. Principalmente na fase da alfabetização. Diz pra mim como explicar ao meu filho, de 6 anos, que na palavra 'quente' o 'u' não tem som e na palavra 'cinquenta' tem. "Qual é a diferença, mamãe? Como vou saber quando ele vai ter som e quando não vai ter?" A resposta, meu filho, era o trema. Agora vai ser como todo o resto: decora. E quando não souber... fala errado mesmo. É assim que o povo faz e, pelo visto, acha bonito.
Ahh... e você, meu amigo das salas dos cursinhos preparatórios, trate de buscar seu guia ortográfico o mais rápido que puder e comece a decorar as novas regras [e as suas exceções]. Sabe aquelas que você passou anos da vida decorando para aquele concurso público tão esperado?? Esqueça-as! Isso aí... fizeram o favor de jogá-las no lixo e confundir ainda mais a sua cabeça! E como um grande alento... ainda te deixam 'errar' até 2012. Olha como são legais!
Peço sinceras desculpas para quem é de opinião contrária. Mas eu precisava deixar bem clara a minha insatisfação com essas mudanças sem pé nem cabeça.
Deixo aí pra vocês um texto de Daniel Gavin, talvez sirva para compreenderem um pouco a minha opinião. Porque quando eu li, percebi que a indignação dele tem algo de familiar para mim.
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"Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.
No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.
Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.
No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando
çerio já vaum tarde.
No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar.
Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.
No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.
Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.
Daniel Gavin"
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E aí? Preparados para enfrentar esse futuro?Devo confessar que eu não vou me acostumar... e me sinto feliz por isso.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Um grande texto
O texto que segue abaixo foi publicado no Terra Magazine, no dia 9 de julho. De lá pra cá, Daniel Dantas já foi solto e preso outra vez, enquanto Nahas e Pitta foram soltos (e, até agora, continuam). Republico o texto porque é um puta texto, bom de ler, com ritmo, ação e bons personagens, como devem ser as grandes reportagens.
Sobre as acusações que contém, até agora não foi noticiada nenhuma declaração dos envolvidos contra o que está escrito (pelo menos, eu não encontrei) e ainda não sei se haverá algum processo contra o autor Bob Fernandes.
Também não publico o texto para discutir política, quem me conhece sabe o que penso a respeito. Então, aproveitem a leitura. É longo (para os padrões da internet), mas imperdível.
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Os intestinos do Brasil
A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.
A Polícia Federal trabalhou contra a Polícia Federal.Esse é mais um capítulo do mergulho nos intestinos do Brasil. Estão presos o banqueiro do Opportunity, o megaespeculador Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e outros 17 dos 21 que tiveram a prisão decretada. É quarta-feira, 9 de julho.
O que se narra aqui são cenas, é o contorno dessa batalha, mas antes é preciso lembrar que este é apenas mais um capítulo.
Crucial, decisivo para que se entenda o todo, o que se movia, se move - e se moverá -, mas apenas mais um capítulo no enredo da maior disputa da história do capitalismo brasileiro, disputa essa que carrega em si o esteio, a sustentação do poder. Do Grande Poder.
O delegado Protógenes Queiroz comandou as investigações no último ano. Antes dele, ao tentar seguir a pista da organização comandada por Dantas, outros delegados fraquejaram. Ou desistiram, ou...
Protógenes foi conduzido ao comando da investigação sigilosa pelo então diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Abin. Paulo Lacerda queria e autorizou a operação até deixar a direção da PF.
Se era ou se não era, se suas relações vinham apenas da proximidade no trabalho de segurança da PF ao candidato Lula em eleição anterior, é uma outra questão, mas o fato é que Luiz Fernando chegou ao cargo com essa fama: amigo de José Dirceu.
Logo ao assumir, o diretor da PF quis mais informações sobre que investigação seria aquela relativa aos negócios e métodos de Daniel Dantas. Normal. Parte das suas atribuições de comando.
O delegado Protógenes, por seu lado, ofereceu explicações genéricas, mas guardou o que era secreto, segredo de justiça.
Normal. Manhas de um tira brilhante, esperto, do policial que prendeu Paulo Maluf, o contrabandista Law Kin Chong, que pôs na marca do pênalti o Corinthians da MSI, Kia Joorabichian e Dualib, que investiga para a FIFA as lavanderias do futebol mundo afora.
Normal, em meio aos rumores sobre vazamentos na investigação e, pior, propinas. Subornos em favor de Dantas.
Na diretoria de Inteligência, um aliado do diretor geral na busca de informações amplas sobre o núcleo das investigações: o delegado Daniel Lorenz.
O jogo é maior, muito maior. As pedras se movem. Ao diretor da Polícia Federal chega o recado. Suave, mas direto: as investigações devem prosseguir.
Fim do ano. Mídia afora, o festival de plantações, versões. A batalha, que é política, comercial, policial, segue seu leito também nas telas, ondas, bits e páginas. Véspera do Natal. Estranhíssima entrevista do diretor geral.
Luiz Fernando Corrêa escolhe o encarte semanal "Brasília" do jornal mineiro Hoje em Dia para mandar um recado em forma de entrevista. Manchete: "Cada geração tem um papel a cumprir. Cumpriu, sai fora!"
Até o vidro fumê do edifício sede da PF em Brasília captou a mensagem e os destinatários: Paulo Lacerda e antigos delegados que comandaram a Polícia durante 4 anos e 8 meses do governo Lula.
Para não haver dúvidas, a capa do tablóide berrou: "PF dividida".
Véspera do Natal, peru, nozes, vinhos, poucos civis devem ter lido. Mas a polícia inteira leu. Comentou, discutiu. E mesmo o mais desatento agente sacou que a barca do delegado Protógenes Queiroz, fosse qual fosse, não era uma boa aos olhos da direção.
Parênteses. Daniel Dantas e os seus comemoravam, vibravam a cada boa notícia. Sim, o que não faltou nesse enredo foi notícia. Capas e capas.
A situação se agrava. Por ordem do comando, o delegado Protógenes Queiroz perde quase toda a logística. Fato registrado, inclusive, em imagens: a sala sendo esvaziada, a tralha tecnológica removida.
Queiroz começa a fingir que a operação faz água. Cede, aceita conversar com a repórter; Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Mas faz uma exigência aos superiores: quer a presença do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, e de Lorenz, o diretor de Inteligência. Corrêa não vai, manda alguém da comunicação social. Lorenz, presente. Na conversa, o delegado Queiroz contorna, tergiversa, despista, e guarda tudo o que disse e o que não disse.
Sábado, 26 de Abril. Anunciado o acordo das teles, vem aí a BrOi. No caderno "Dinheiro", da Folha, em quase meia página a repórter Andréa Michael relata os contornos de uma operação a caminho, destinada a prender Daniel Dantas.
Domingo, 27 de Abril. A operação está morta. Protógenes Queiroz faz dois movimentos. Primeiro, na véspera, a ligação para Lorenz, que está no Chile. Cobra a conta da conversa com a repórter, quando apenas despistou. A conversa, de parte a parte, não é boa. Segundo movimento: Queiroz, para efeito externo, dá a operação como morta. Para efeito interno, os fatos incendeiam agentes, peritos e delegados envolvidos numa operação cada vez mais secreta.
Segue a semana. Queiroz é comunicado. Não há, não haverá mais logística alguma. Caso encerrado. Caso que o diretor geral e o diretor de Inteligência seguem a desconhecer em seu teor. O delegado está solto no espaço.
Uma outra rede conecta-se, subterrânea, solidária. O outro lado da polícia trabalha, secretamente, pela Satiagraha, a "firmeza na verdade" de Gandhi.
Notas em colunas, sites. Chutes, bravatas, cascatas, desinformação. A operação é adiada. Uma, duas, três vezes.
O delegado Protógenes Queiroz é monitorado, vigiado. Pela Polícia Federal. E sua equipe contra-ataca: vigia, monitora, flagra e registra, os movimentos dos monitoradores da própria PF. Daniel Dantas e os seus estão tensos. Em dúvida: acabou, ou não acabou? Na dúvida, encaminham ao Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus preventivo, para Dantas e a irmã, Verônica.
Daniel Dantas morde a isca. Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom e o amigo Hugo Chicaroni são os intermediários. A oferta é feita ao delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves. Na churrascaria El Tranvia, bairro de Santa Cecília, São Paulo, o ensaio para o acordo final: US$ 1 milhão. Como sinal, duas parcelas, uma de 50 e outra de 80, e pagamento em outras duas de US$ 500 mil. Encontros e acordos fechados em 18 e 26 de junho. Para livrar a cara dos Dantas. Há algo no ar.
Frases soltas.
Gilmar Mendes é o presidente do STF. No meio da semana, pós-São João, desponta nas telas, um tempão nos telejornais, nas manchetes do dia seguinte. Refere-se a informações vazadas por policiais, uma "coisa de gângsters" e ao "terrorismo lamentável".
A fala ecoa. Cada um entende como quer. Críticas gerais às interceptações telefônicas (mesmo às autorizadas judicialmente).
Julho chegou. Fim de semana. Notas, boatos... Daniel Dantas está em Nova Iorque... Daniel Dantas aguarda o habeas corpus para voltar ao Brasil...
Sete de Julho. O delegado geral, Luiz Fernando Corrêa, que até a véspera nada sabia sobre a verdadeira extensão de Satiagraha, quer agora saber de tudo. De tudo, não saberá. Extrema tensão. Como há um mês, no Rio de Janeiro.
Agentes da equipe de Queiroz seguiam gente dos Dantas, pelas ruas do Rio. A polícia foi chamada, quase um confronto até o esclarecimento "somos da PF" e o despiste numa operação banal qualquer. Mas a queixa subiu.
Chegou ao diretor geral da PF, a Heráclito Fortes (DEM-PI) no senado e ao advogado geral da União, José Antonio Toffoli, adentrou o Supremo Tribunal.
Seis da manhã, 8 de julho. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.
Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.
- ...isso faz inveja ao regime soviético...
Frases soltas no ar.
Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg. Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, "coisas do passado", e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação "com tamanho estardalhaço..."
Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar: "...ela tava estranha, não?"
Frases soltas no ar.
Daniel Dantas está preso. Esse, o policial, é mais um capítulo da operação que chegou aos intestinos do Brasil.
•••
O texto abaixo, também de Bob Fernandes, foi publicado às 15h33 de hoje (11/07), no mesmo Terra Magazine.
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Os intestinos do Brasil
Daniel Dantas está numa sala da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Seu advogado, Nélio Machado, está próximo.
Diante do banqueiro, o delegado que coordenou a operação Satiagraha, o homem que o prendeu por duas vezes em 48 horas. São 8 da noite da quinta-feira, 10 de julho.
Outros dois dos presos na operação acabam de ser libertados, habeas corpus do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, concedido ao megainvestidor Naji Nahas e ao ex-prefeito Celso Pitta.
Daniel Dantas parece exausto, rendido, mas não deixou de ser quem é. Obcecado por tudo que foca e toca, brilhante, genial, reconhecem mesmo os mais empedernidos adversários.
O tempo, pouco tempo, dirá o quanto há de cálculo, quanto há de desabafo no que começa a despejar sobre o delegado Protógenes Queiróz. Primeiro, a senha: "Eu vou contar tudo! Vou detonar!"
Antes ainda, o delegado lhe passa um calhamaço, o relatório das investigações, o fruto de anos de investigações, e diz, na longa conversa informal:
- ...sua grande ruína foi a mídia...você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso...sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente...
Daniel lê, atentamente.
O delegado volta à carga.
- Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou...
Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:
- Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão... eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados... e se você insistir agora será com a família toda... serão duzentos anos de prisão...
Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:
- ...vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo....
Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição: "Eu vou contar tudo!"
E faz jorrar, devastador:
-...vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004...
- Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll...?
Prossegue a torrente de Daniel:
- ...tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso... tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa...
O delegado, avança:
- Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil... quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa...
Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:
- ...você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!
Daniel Dantas, o obcecado por tudo que toca e foca, a mente brilhante, aquele que mesmo os inimigos dizem ser um gênio, despeja:
- Eu vou detonar tudo!
Tarde da sexta-feira 11 de Julho. Daniel Dantas está na Superintendência da Polícia Federal, São Paulo, onde será ouvido formalmente pelo delegado Protógenes Queiróz a partir das 15h30.
O advogado Nélio Machado informa ao reportariado que vai orientar seu cliente para nada dizer.
O tempo, pouco tempo, dirá se tudo não passou de exaustão, desabafo.
Se tudo foi só cálculo, ou, um mergulho definitivo, purificador, nos intestinos do Brasil.
Sobre as acusações que contém, até agora não foi noticiada nenhuma declaração dos envolvidos contra o que está escrito (pelo menos, eu não encontrei) e ainda não sei se haverá algum processo contra o autor Bob Fernandes.
Também não publico o texto para discutir política, quem me conhece sabe o que penso a respeito. Então, aproveitem a leitura. É longo (para os padrões da internet), mas imperdível.
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Os intestinos do Brasil
A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.
A Polícia Federal trabalhou contra a Polícia Federal.Esse é mais um capítulo do mergulho nos intestinos do Brasil. Estão presos o banqueiro do Opportunity, o megaespeculador Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e outros 17 dos 21 que tiveram a prisão decretada. É quarta-feira, 9 de julho.
Nas telas, ondas, bits e páginas, a futebolização de sempre: aplausos entusiasmados, críticas ferozes à ação da polícia. O que ainda não chegou à tona é a verdadeira história dessa gigantesca ação policial, da encarniçada batalha que se travou nos setores de Inteligência e da Polícia.Daniel Dantas
O que se narra aqui são cenas, é o contorno dessa batalha, mas antes é preciso lembrar que este é apenas mais um capítulo.
Crucial, decisivo para que se entenda o todo, o que se movia, se move - e se moverá -, mas apenas mais um capítulo no enredo da maior disputa da história do capitalismo brasileiro, disputa essa que carrega em si o esteio, a sustentação do poder. Do Grande Poder.
O delegado Protógenes Queiroz comandou as investigações no último ano. Antes dele, ao tentar seguir a pista da organização comandada por Dantas, outros delegados fraquejaram. Ou desistiram, ou...
Protógenes foi conduzido ao comando da investigação sigilosa pelo então diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Abin. Paulo Lacerda queria e autorizou a operação até deixar a direção da PF.
Um dia, convidado pelo presidente Lula, Lacerda foi para a Abin. Em seu lugar assumiu Luiz Fernando Corrêa, que chefiava a Força Nacional de Segurança Pública. Luiz assumiu com fama de amigo de José Dirceu.Luiz Fernando Corrêa
Se era ou se não era, se suas relações vinham apenas da proximidade no trabalho de segurança da PF ao candidato Lula em eleição anterior, é uma outra questão, mas o fato é que Luiz Fernando chegou ao cargo com essa fama: amigo de José Dirceu.
Logo ao assumir, o diretor da PF quis mais informações sobre que investigação seria aquela relativa aos negócios e métodos de Daniel Dantas. Normal. Parte das suas atribuições de comando.
O delegado Protógenes, por seu lado, ofereceu explicações genéricas, mas guardou o que era secreto, segredo de justiça.
Normal. Manhas de um tira brilhante, esperto, do policial que prendeu Paulo Maluf, o contrabandista Law Kin Chong, que pôs na marca do pênalti o Corinthians da MSI, Kia Joorabichian e Dualib, que investiga para a FIFA as lavanderias do futebol mundo afora.
Normal, em meio aos rumores sobre vazamentos na investigação e, pior, propinas. Subornos em favor de Dantas.
Na diretoria de Inteligência, um aliado do diretor geral na busca de informações amplas sobre o núcleo das investigações: o delegado Daniel Lorenz.
Protógenes Queiróz é duro na queda. Primeiros embates, e a operação Satiagraha perde estrutura. O comando esvazia parte da logística; retira agentes e peritos, encolhe a sala, asfixia as investigações....o corriqueiro nos jogos de guerra.Celso Pitta
O jogo é maior, muito maior. As pedras se movem. Ao diretor da Polícia Federal chega o recado. Suave, mas direto: as investigações devem prosseguir.
Fim do ano. Mídia afora, o festival de plantações, versões. A batalha, que é política, comercial, policial, segue seu leito também nas telas, ondas, bits e páginas. Véspera do Natal. Estranhíssima entrevista do diretor geral.
Luiz Fernando Corrêa escolhe o encarte semanal "Brasília" do jornal mineiro Hoje em Dia para mandar um recado em forma de entrevista. Manchete: "Cada geração tem um papel a cumprir. Cumpriu, sai fora!"
Até o vidro fumê do edifício sede da PF em Brasília captou a mensagem e os destinatários: Paulo Lacerda e antigos delegados que comandaram a Polícia durante 4 anos e 8 meses do governo Lula.
Para não haver dúvidas, a capa do tablóide berrou: "PF dividida".
Véspera do Natal, peru, nozes, vinhos, poucos civis devem ter lido. Mas a polícia inteira leu. Comentou, discutiu. E mesmo o mais desatento agente sacou que a barca do delegado Protógenes Queiroz, fosse qual fosse, não era uma boa aos olhos da direção.
Parênteses. Daniel Dantas e os seus comemoravam, vibravam a cada boa notícia. Sim, o que não faltou nesse enredo foi notícia. Capas e capas.
O carnaval se foi. E um fato: a repórter quer falar com o delegado Queiroz. Quer informações sobre uma investigação que envolveria Daniel Dantas e o Opportunity. Apreensão, no início de abril - e isso são fatos. Objetivos. Conhecidos desde então: a repórter vai publicar o que tem se não for recebida.Naji Nahas
A situação se agrava. Por ordem do comando, o delegado Protógenes Queiroz perde quase toda a logística. Fato registrado, inclusive, em imagens: a sala sendo esvaziada, a tralha tecnológica removida.
Queiroz começa a fingir que a operação faz água. Cede, aceita conversar com a repórter; Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Mas faz uma exigência aos superiores: quer a presença do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, e de Lorenz, o diretor de Inteligência. Corrêa não vai, manda alguém da comunicação social. Lorenz, presente. Na conversa, o delegado Queiroz contorna, tergiversa, despista, e guarda tudo o que disse e o que não disse.
Sábado, 26 de Abril. Anunciado o acordo das teles, vem aí a BrOi. No caderno "Dinheiro", da Folha, em quase meia página a repórter Andréa Michael relata os contornos de uma operação a caminho, destinada a prender Daniel Dantas.
Domingo, 27 de Abril. A operação está morta. Protógenes Queiroz faz dois movimentos. Primeiro, na véspera, a ligação para Lorenz, que está no Chile. Cobra a conta da conversa com a repórter, quando apenas despistou. A conversa, de parte a parte, não é boa. Segundo movimento: Queiroz, para efeito externo, dá a operação como morta. Para efeito interno, os fatos incendeiam agentes, peritos e delegados envolvidos numa operação cada vez mais secreta.
Segue a semana. Queiroz é comunicado. Não há, não haverá mais logística alguma. Caso encerrado. Caso que o diretor geral e o diretor de Inteligência seguem a desconhecer em seu teor. O delegado está solto no espaço.
Uma outra rede conecta-se, subterrânea, solidária. O outro lado da polícia trabalha, secretamente, pela Satiagraha, a "firmeza na verdade" de Gandhi.
Notas em colunas, sites. Chutes, bravatas, cascatas, desinformação. A operação é adiada. Uma, duas, três vezes.
O delegado Protógenes Queiroz é monitorado, vigiado. Pela Polícia Federal. E sua equipe contra-ataca: vigia, monitora, flagra e registra, os movimentos dos monitoradores da própria PF. Daniel Dantas e os seus estão tensos. Em dúvida: acabou, ou não acabou? Na dúvida, encaminham ao Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus preventivo, para Dantas e a irmã, Verônica.
Daniel Dantas morde a isca. Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom e o amigo Hugo Chicaroni são os intermediários. A oferta é feita ao delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves. Na churrascaria El Tranvia, bairro de Santa Cecília, São Paulo, o ensaio para o acordo final: US$ 1 milhão. Como sinal, duas parcelas, uma de 50 e outra de 80, e pagamento em outras duas de US$ 500 mil. Encontros e acordos fechados em 18 e 26 de junho. Para livrar a cara dos Dantas. Há algo no ar.
Frases soltas.
Gilmar Mendes é o presidente do STF. No meio da semana, pós-São João, desponta nas telas, um tempão nos telejornais, nas manchetes do dia seguinte. Refere-se a informações vazadas por policiais, uma "coisa de gângsters" e ao "terrorismo lamentável".
A fala ecoa. Cada um entende como quer. Críticas gerais às interceptações telefônicas (mesmo às autorizadas judicialmente).
Julho chegou. Fim de semana. Notas, boatos... Daniel Dantas está em Nova Iorque... Daniel Dantas aguarda o habeas corpus para voltar ao Brasil...
Sete de Julho. O delegado geral, Luiz Fernando Corrêa, que até a véspera nada sabia sobre a verdadeira extensão de Satiagraha, quer agora saber de tudo. De tudo, não saberá. Extrema tensão. Como há um mês, no Rio de Janeiro.
Agentes da equipe de Queiroz seguiam gente dos Dantas, pelas ruas do Rio. A polícia foi chamada, quase um confronto até o esclarecimento "somos da PF" e o despiste numa operação banal qualquer. Mas a queixa subiu.
Chegou ao diretor geral da PF, a Heráclito Fortes (DEM-PI) no senado e ao advogado geral da União, José Antonio Toffoli, adentrou o Supremo Tribunal.
Seis da manhã, 8 de julho. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.
Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.
Gilmar Mendes, o presidente do STF, ataca a "espetacularização das prisões, incompatível com o Estado de Direito", critica duramente o pedido de prisão, negado, contra a repórter da Folha de S. Paulo:Gilmar Mendes
- ...isso faz inveja ao regime soviético...
Frases soltas no ar.
Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg. Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, "coisas do passado", e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação "com tamanho estardalhaço..."
Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar: "...ela tava estranha, não?"
Frases soltas no ar.
Daniel Dantas está preso. Esse, o policial, é mais um capítulo da operação que chegou aos intestinos do Brasil.
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O texto abaixo, também de Bob Fernandes, foi publicado às 15h33 de hoje (11/07), no mesmo Terra Magazine.
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Os intestinos do Brasil
Daniel Dantas está numa sala da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Seu advogado, Nélio Machado, está próximo.
Diante do banqueiro, o delegado que coordenou a operação Satiagraha, o homem que o prendeu por duas vezes em 48 horas. São 8 da noite da quinta-feira, 10 de julho.
Outros dois dos presos na operação acabam de ser libertados, habeas corpus do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, concedido ao megainvestidor Naji Nahas e ao ex-prefeito Celso Pitta.
Daniel Dantas parece exausto, rendido, mas não deixou de ser quem é. Obcecado por tudo que foca e toca, brilhante, genial, reconhecem mesmo os mais empedernidos adversários.
O tempo, pouco tempo, dirá o quanto há de cálculo, quanto há de desabafo no que começa a despejar sobre o delegado Protógenes Queiróz. Primeiro, a senha: "Eu vou contar tudo! Vou detonar!"
Antes ainda, o delegado lhe passa um calhamaço, o relatório das investigações, o fruto de anos de investigações, e diz, na longa conversa informal:
- ...sua grande ruína foi a mídia...você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso...sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente...
Daniel lê, atentamente.
O delegado volta à carga.
- Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou...
Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:
- Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão... eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados... e se você insistir agora será com a família toda... serão duzentos anos de prisão...
Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:
- ...vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo....
Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição: "Eu vou contar tudo!"
E faz jorrar, devastador:
-...vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004...
- Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll...?
Prossegue a torrente de Daniel:
- ...tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso... tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa...
O delegado, avança:
- Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil... quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa...
Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:
- ...você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!
Daniel Dantas, o obcecado por tudo que toca e foca, a mente brilhante, aquele que mesmo os inimigos dizem ser um gênio, despeja:
- Eu vou detonar tudo!
Tarde da sexta-feira 11 de Julho. Daniel Dantas está na Superintendência da Polícia Federal, São Paulo, onde será ouvido formalmente pelo delegado Protógenes Queiróz a partir das 15h30.
O advogado Nélio Machado informa ao reportariado que vai orientar seu cliente para nada dizer.
O tempo, pouco tempo, dirá se tudo não passou de exaustão, desabafo.
Se tudo foi só cálculo, ou, um mergulho definitivo, purificador, nos intestinos do Brasil.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Ditadura, anistia e grana. Muita grana...
Segue abaixo mais um texto sobre a questão das indenizações. Como disse quando publiquei o post anterior, Ziraldo e Jaguar seriam a ponta midiática (bonito hein...?) da questão, facilitando o barulho dos que seriam contra.
O texto de hoje abre um pouco mais a questão e, quem diria, foi publicado na Veja. Eu pesquei no excelente blog do Andrei Bastos.
•••
O preço de um ideal
O valor das indenizações aos anistiados políticos volta a provocar polêmica
por Ronaldo França (Revista Veja, edição 2056, 16/04/2008)
O carioca César Benjamin, dono da editora Contraponto, ficou preso dos 17 aos 22 anos, sendo três anos e meio na solitária. Depois, amargou dois anos de exílio. Seu irmão, o jornalista Cid Benjamin, após participar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, foi preso e banido. Só retornou ao Brasil nove anos depois. Raimundo Pereira, que esteve à frente do jornal Movimento, foi preso em 1964 e expulso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), uma das principais instituições de ensino do país. A legislação em vigor lhes garante compensações pelos inegáveis danos que sofreram durante os anos da ditadura militar. Mas nenhum deles quis buscar as indenizações tão generosamente distribuídas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Isso porque, acreditam, o que está em jogo não é uma questão meramente legal, mas ética. Bem diferente do que pensam outros brasileiros que foram (e alguns que dizem ter sido) perseguidos e prejudicados pelos militares e vêm embolsando quantias milionárias. “O direito à indenização deveria se restringir aos casos de comprovado e irreparável prejuízo”, diz o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que foi preso e exilado mas não pediu um centavo por isso.

Na semana passada, o debate girou em torno dos cartunistas Jaguar e Ziraldo, cuja pensão mensal vitalícia foi arbitrada em mais de 4 000 reais, valor ao qual, por força de alguns critérios estapafúrdios da lei em vigor, se somam atrasados retroativos a 1988 de 1 milhão de reais – para cada um. Os dois tiveram de fato um papel no jornal O Pasquim, que se opunha ao regime. O que causou espanto foi saber que a conta seria paga pelos brasileiros. O também jornalista Millôr Fernandes, colunista de VEJA, definiu assim os que pediram indenização: “Eu pensava que eles estavam defendendo uma ideologia, mas estavam fazendo um investimento”. A comissão já analisou 37 000 processos e julgou favoravelmente 24 600, desde que foi criada, em 2001. O estado brasileiro desembolsou quase 4 bilhões de reais com isso.
Uma boa medida de comparação foi feita pelo jornalista Elio Gaspari, que lembrou em sua coluna nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo que o holocausto massacrou mais de 6 milhões de judeus e a Alemanha pagou o equivalente a 9,8 bilhões de reais em indenizações. Essa desproporção de valores ocorre, em parte, porque a lei brasileira sobre o assunto é vaga e impõe critérios injustificáveis para a concessão do benefício e o cálculo dos valores. O próprio presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, considera os valores exorbitantes. A lei também contempla, indistintamente, pessoas que estiveram presas durante anos a fio e outras que dormiram duas noites no xadrez. Diz César Benjamin: “Não acho certo o estado me sustentar. Tenho capacidade de trabalho. Ter explicado isso aos meus três filhos e vê-los apoiar minha decisão valeu mais do que qualquer milhão”.
O texto de hoje abre um pouco mais a questão e, quem diria, foi publicado na Veja. Eu pesquei no excelente blog do Andrei Bastos.
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O preço de um ideal
O valor das indenizações aos anistiados políticos volta a provocar polêmica
por Ronaldo França (Revista Veja, edição 2056, 16/04/2008)
O carioca César Benjamin, dono da editora Contraponto, ficou preso dos 17 aos 22 anos, sendo três anos e meio na solitária. Depois, amargou dois anos de exílio. Seu irmão, o jornalista Cid Benjamin, após participar do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, foi preso e banido. Só retornou ao Brasil nove anos depois. Raimundo Pereira, que esteve à frente do jornal Movimento, foi preso em 1964 e expulso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), uma das principais instituições de ensino do país. A legislação em vigor lhes garante compensações pelos inegáveis danos que sofreram durante os anos da ditadura militar. Mas nenhum deles quis buscar as indenizações tão generosamente distribuídas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Isso porque, acreditam, o que está em jogo não é uma questão meramente legal, mas ética. Bem diferente do que pensam outros brasileiros que foram (e alguns que dizem ter sido) perseguidos e prejudicados pelos militares e vêm embolsando quantias milionárias. “O direito à indenização deveria se restringir aos casos de comprovado e irreparável prejuízo”, diz o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que foi preso e exilado mas não pediu um centavo por isso.

Na semana passada, o debate girou em torno dos cartunistas Jaguar e Ziraldo, cuja pensão mensal vitalícia foi arbitrada em mais de 4 000 reais, valor ao qual, por força de alguns critérios estapafúrdios da lei em vigor, se somam atrasados retroativos a 1988 de 1 milhão de reais – para cada um. Os dois tiveram de fato um papel no jornal O Pasquim, que se opunha ao regime. O que causou espanto foi saber que a conta seria paga pelos brasileiros. O também jornalista Millôr Fernandes, colunista de VEJA, definiu assim os que pediram indenização: “Eu pensava que eles estavam defendendo uma ideologia, mas estavam fazendo um investimento”. A comissão já analisou 37 000 processos e julgou favoravelmente 24 600, desde que foi criada, em 2001. O estado brasileiro desembolsou quase 4 bilhões de reais com isso.
Uma boa medida de comparação foi feita pelo jornalista Elio Gaspari, que lembrou em sua coluna nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo que o holocausto massacrou mais de 6 milhões de judeus e a Alemanha pagou o equivalente a 9,8 bilhões de reais em indenizações. Essa desproporção de valores ocorre, em parte, porque a lei brasileira sobre o assunto é vaga e impõe critérios injustificáveis para a concessão do benefício e o cálculo dos valores. O próprio presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, considera os valores exorbitantes. A lei também contempla, indistintamente, pessoas que estiveram presas durante anos a fio e outras que dormiram duas noites no xadrez. Diz César Benjamin: “Não acho certo o estado me sustentar. Tenho capacidade de trabalho. Ter explicado isso aos meus três filhos e vê-los apoiar minha decisão valeu mais do que qualquer milhão”.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Repúdio às imorais indenizações de Ziraldo e Jaguar
“Então eles não estavam fazendo uma rebelião, mas um
investimento."Millor Fernandes
Exmo. Sr.
Tarso Genro
Ministro da Justiça
Brasília – DF
Excelência,
Repudiamos a decisão imoral da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que - de forma afrontosa, absurda e injustificável - premiou os cartunistas Ziraldo Alves Pinto e Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o "Jaguar", fundadores de "O Pasquim", com acintosas e indecentes "indenizações".
Tarso Genro
Ministro da Justiça
Brasília – DF
Excelência,
Repudiamos a decisão imoral da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que - de forma afrontosa, absurda e injustificável - premiou os cartunistas Ziraldo Alves Pinto e Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o "Jaguar", fundadores de "O Pasquim", com acintosas e indecentes "indenizações".
Sem desconhecer ou negar os méritos do extinto jornal e sua corajosa participação na luta contra o regime implantado pelo golpe de 1964, não se pode, de forma alguma, aceitar esse equívoco lamentável do Ministério da Justiça, que nos custará a bagatela de R$ 1.253.000,24 (hum milhão duzentos e cinqüenta e sete mil reais e vinte e quatro centavos) para Ziraldo, e outros R$ 1.027.383,29 (hum milhão vinte e sete mil trezentos e oitenta e três reais e vinte e nove centavos) para Jaguar, além de polpudas pensões mensais e vitalícias. Isso tudo à custa de nosso trabalho, raspado de nossos bolsos, em decisão que enxovalha o Estado de Direito e a seriedade no trato dos dinheiros públicos.
Há que se registrar a cupidez vergonhosa de dois jornalistas do nível de Ziraldo e Jaguar, que encerram suas vidas profissionais desenhando em tinta marrom a charge da desmoralização de suas lutas e da degradação moral de suas biografias. Transformaram em negócio o que pensávamos ter sido feito por dignidade pessoal e bravura cívica. Receberam, por décadas, o nosso aplauso sincero. Agora, por dinheiro, escarnecem de toda a cidadania, chocada e atônita com a revelação de suas verdadeiras personalidades e intenções.
Com a ditadura sofreram todos os brasileiros. Por isso não encaramos como negócio lucrativo, prebendário e vergonhoso o que se fez por idealismo, honradez e dever. A ditadura não só não provocou danos terríveis a Ziraldo e Jaguar, como agora os enriquece e os torna milionários à custa de um país de miseráveis e doentes.
Aplaudimos os demais jornalistas que fizeram o saudoso semanário pela decisão de não acompanharem Ziraldo e Jaguar nessa pilhagem, roubando dos brasileiros o dinheiro que deveria (e poderia) estar sendo utilizado na construção de hospitais, num país de doentes; de escolas, num país de analfabetos; na geração de empregos, num país de desempregados.
Que se degradem, que se desmoralizem, que se mostrem publicamente de uma forma que jamais poderíamos esperar. Mas não à custa de nossos bolsos, surrupiando o dinheiro suado de milhões de brasileiros que sofreram com o regime de exceção, mas nem por isso se acham no direito de "ganhar na loteria".
Exigimos mais critério, seriedade e parcimônia na concessão de tais indenizações pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Para que se evitem espetáculos bisonhos como o que assistimos.
Clique aqui e assine a petição.
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Quem quiser ler um texto brilhante sobre o tema, visite o blog do Andrei Bastos.
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É claro que as indenizações ao Jaguar e ao Ziraldo não são as únicas imorais. Imorais por quem pede, por quem dá. Mas é preciso começar a fazer barulho de alguma maneira.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
O último muro
Nunca fui um defensor ferrenho de Cuba e do Fidel que conheci. Sim, porque o Fidel que conheci é muito diferente do Fidel que derrubou Fulgêncio. E nunca fui partícipe dos maniqueísmos simplórios, como contra ou a favor porque sim ou porque não, que acabaram transformando a revolução cubana e seus líderes em ícones pop.
Mas também sempre tive a certeza que Cuba chegou ao ponto em que está, com todas as dificuldades, por culpa do embargo, disfarçado num rescaldo safado da guerra fria. Certamente, sem o bloqueio, haveria outros problemas e talvez o regime até não existisse mais. Mas 'se' não existe (se sapo tivesse embreagem não pulava tanto).
Fidel Castro renunciou hoje à Presidência de Cuba e ao comando das Forças Armadas do país. A data, 19 de fevereiro de 2008, entrará para os livros de História como o dia da queda do Muro de Berlim e da dissolução da URSS. É a História sendo escrita diante de nossos olhos.
Mas também sempre tive a certeza que Cuba chegou ao ponto em que está, com todas as dificuldades, por culpa do embargo, disfarçado num rescaldo safado da guerra fria. Certamente, sem o bloqueio, haveria outros problemas e talvez o regime até não existisse mais. Mas 'se' não existe (se sapo tivesse embreagem não pulava tanto).
Enfim, segue abaixo um belo texto do Flávio Gomes, que nada mais é que um ponto de vista. Só isso, entre tantas concordâncias e discordâncias que podem haver. Aliás, se alguém quiser discorrer sobre o tema, fiquem bem à vontade.
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Fidel Castro renunciou hoje à Presidência de Cuba e ao comando das Forças Armadas do país. A data, 19 de fevereiro de 2008, entrará para os livros de História como o dia da queda do Muro de Berlim e da dissolução da URSS. É a História sendo escrita diante de nossos olhos.Mas esta noite, no Brasil, o assunto será o paredão do BBB.
Essa é uma das diferenças básicas entre as sociedades cubana e brasileira. Nós vemos Cuba sob o olhar de décadas de propaganda americana sobre a ilha. Analisamos o regime sob a ótica da frivolidade, fazendo gracejos sobre os carros velhos, a quantidade de canais de TV, a falta de celulares. E depois, num segundo momento, tentamos politizar a questão cubana com o argumento único de que "se fosse bom não proibiriam ninguém de sair" e coisas do tipo.
Tese superficial como um espinho.
Com nossa visão americanizada de mundo, não conseguimos compreender e nem aceitar uma sociedade em que a prioridade não é comprar carro bonito, ou o último Motorola, ou o apartamento na Riviera. Viver é ter. Qualquer coisa que não seja parecida com isso é não-viver.
Esse é o maior engano que se comete quando se fala de Cuba: não entender que existe gente no mundo que não liga para essas coisas. Cuba vive sob o mesmo regime há meio século. 90% de sua população de 11,2 milhões de habitantes (dado de 2002) — menor que a da cidade de São Paulo — tem até 64 anos. Ou seja: praticamente todos nasceram depois que Fidel derrubou a putaria de Fulgêncio Batista.
Viver, para essa gente, é uma experiência muito diferente da nossa. Batalha-se pelo supérfluo, com a certeza de que o básico está garantido: educação, saúde, emprego (antes de seguir, leia este belo resumo sobre Cuba, com dados muito relevantes; preste especial atenção no quadro que fala sobre a política dos EUA em relação ao país).
Em tudo que realmente importa, Cuba é melhor que a maior parte do planeta. Mortalidade infantil, analfabetismo, miséria, falta de moradia e desemprego não fazem parte da rotina do cubano. Que pode não ter uma vida de luxos e regalias, pode não ter TV de LCD ou um Corolla na garagem, mas olhe para o seu próprio umbigo: quem aqui tem?
Dispa-se de seus pequenos desejos de consumo e responda, com sinceridade: se você fosse sua empregada, morando nos confins da periferia, ganhando 500 reais por mês, com filhos na escola pública, assassinatos no boteco ao lado, camelando quatro horas por dia dentro de um ônibus, tendo de pegar fila no centro de saúde, não acharia um país como Cuba uma maravilha?
A imensa maioria dos brasileiros, imensa mesmo, vive muito pior que o pior dos cubanos. Você pode até viver melhor. Eu vivo. Mas a imensa maioria, imensa mesmo, vive muito pior.
Aqui temos democracia, TV a cabo, loja da Maserati, calças Diesel, celular 3G. Podemos ir a Miami sem correr o risco de morrer afogado numa balsa feita em casa. Mas quantos de nós, brasileiros, vivemos integralmente essa liberdade? Quantos de nós podemos passar diante de uma vitrine, desejar algo e comprar? Quantos de nós podem sonhar com algo muito diferente da balsa que embala os sonhos dos dissidentes?
Nossa liberdade é bem relativa. É condicionada ao que se tem. E, para quem não tem nada, muito mais cruel do que as restrições ao ir e vir a que os cubanos são submetidos. Eles, pelo menos, sabem as regras do jogo, e as regras lá são feitas para a maioria. Sua realidade é a da ilha, e é nela que vivem. Com ambições e pretensões bem diferentes daquelas que nos alimentam, nós aqui do lado bonito e feérico do mundo.
E, afinal, quem somos nós para hierarquizar ambições? Quem é você para achar que seu desejo de ter uma Hilux é mais defensável do que o desejo de um cubano de ter uma geladeira melhor? Quem é você para afirmar que o american way of life adotado e defendido pelo mundo ocidental — esse estilo de vida que permite e aceita a degradação do ser humano miserável, que estimula a competição e que fecha os olhos para a violência diária contra os que não deram a sorte de ter o que você tem — é mais humano que a simple life de um povo como o cubano?
Na verdade, quem somos nós para falar de Cuba? Quem somos nós para troçar de Fidel? Quem somos nós para caçoar dos prédios decrépitos de Havana? Que país nossos pais nos deixaram, e que país estamos deixando para nossos filhos? Podemos nos orgulhar de alguma coisa? Podemos nos orgulhar de ter construído, com nossos meios e nossas mãos, uma nação onde as pessoas têm as mesmas chances, onde todos têm direito a uma escola, a um médico, a um trabalho?
Cuba pode. Nós fracassamos, eles venceram.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Guanabara e Libertadores
Na quarta passada, começou a Libertadores 2008 para o Flamengo. O jogo, o Flamengo foi bisonho: um empate safado contra o Coronel Bolognesi (quem?!). Resultado devidamente debitado na conta do Joel. Para compensar, ontem vencemos a semi-final da taça Guanabara, jogando contra aquele time. Aliás, como já é mais que hábito em partidas decisivas entre os dois clubes. Do jogo de ontem, ficou claro que – se o Joel deixar o time jogar como deve – o Flamengo pode fazer uma bela participação na Libertadores e no Brasileiro que está por vir.Para comemorar a vitória de ontem e tentar inspirar Joel e o time para a copa continental, segue um texto enviado pelo amigo Jefferson. O texto é longo, mas vale a pena.
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Final da copa Libertadores da América
(Francisco Moraes e José Carlos Nascimento)
(Francisco Moraes e José Carlos Nascimento)
Quando ganhamos do Cobreloa, no Rio, começamos os preparativos para a segunda partida, em Santiago. Corremos atrás de patrocínio e batemos de frente no muro. Nada de patrocínio e o Cláudio enlouquecendo.
Ele alugou um ônibus e não conseguia fechar as contas porque todo mundo queria ir, mas grana que é bom, necas. (...) O Cláudio teve que vender o carro às pressas, no dia da viagem, porque a empresa queria 50% de sinal e o restante na volta. Foi um sufoco. Nós fizemos uma vaquinha e completamos a quantia necessária. Ficou então combinado que a excursão sairia segunda feira, às duas da tarde, da porta do Maracanã.
Na hora da viagem o Cláudio só deixou embarcarem os torcedores que, além da passagem paga, tinham o mínimo de dinheiro para se manter no Chile. Só embarcaram 28. (...) No ônibus estavam Gustavo Villela, José Carlos Nascimento - que se tornou meu companheiro inseparável de viagem -, tia Laura (da Charanga), Beto (presidente da União da Ilha), Loyola e outros de quem não consigo lembrar o nome. Aliás, a presença do Beto fez do samba da Ilha o hino oficial da caravana.
“É hoje o dia da alegria e a tristeza não pode pensar em chegar...”
Saímos por volta das três da tarde, diretamente para Santiago. O plano era chegar quinta-feira, véspera do jogo, descansar e assistir a partida com conforto, sem corre-corre. Pedimos ao Domingo Bosco que comprasse os ingressos (pagamos!!!). Até Mendoza (Argentina) tudo correu bem. Viagem cansativa mas sem maiores problemas (...).
De Mendoza pode-se ver toda a imponência da Cordilheira dos Andes. Começamos a subir e nosso ônibus não agüentou. Putz!!! Conserta daqui, mexe dali, fomos obrigados a voltar para a cidade. Isso atrasaria a viagem em um dia e nos obrigaria a sair correndo para Santiago em cima da hora.
No dia do jogo, bem cedo, embarcamos para Santiago. Eram 6 da manhã e a viagem seria de 6 horas, o que deixava tempo para fazer alguma coisa. Subimos a cordilheira, mas o ônibus quebrou de novo, nos deixando a mais de três mil metros de altitude. Para nossa sorte, vinha atrás um ônibus argentino, que ia para Santiago. Conversa vai, conversa vem, todo mundo pulou para dentro.
Já eram 18h30 quando, finalmente, chegamos a Santiago (o jogo era às 20h). Corremos para o hotel do Flamengo, mas a delegação já havia saído. Todavia, o Bosco tinha deixado o recado: os ingressos estavam na bilheteria do estádio, à nossa disposição. Fomos para o estádio, com uma fome de matar leão e (...) nossos lugares eram bem no meio da torcida deles.
O Estádio Nacional pulava, cantava, tremia... E a gente apanhava, apanhava, apanhava... Levamos porrada, cusparada, beliscão, puxão no cabelo (e olha que a polícia estava nos protegendo). A única coisa de que gostamos foi quando eles começaram a jogar laranjas, bananas, uvas. Era pegar, limpar e comer. Com a fome que estávamos, melhor só se eles tivessem jogado filé, batata frita e arroz.
Perdemos o jogo, que foi uma verdadeira batalha campal. Os jogadores do Flamengo saíram do gramado como se tivessem participado de uma guerra na Palestina. O Mário Souto (zagueiro do Cobreloa) jogou com uma pedra na mão. Quebrou as cabeças do Adílio e do Lico. Foi terrível. O pior de tudo é que agora tínhamos que sair dali direto para Montevidéu, campo neutro, onde seria realizada a partida decisiva. Por sorte, nosso ônibus estava consertado e aguardava a galera na porta do estádio.
Saímos do estádio escoltados pela polícia que, por vício, sentava o pau em qualquer chileno que chegasse perto. Entramos no ônibus e fomos para um restaurante fora de Santiago, comer alguma coisa e planejar a viagem para o Uruguai. No fundo, no fundo, não estava nos planos de ninguém esse alongamento da excursão. Ficou decidido que voltaríamos de ônibus até a fronteira entre Argentina e Uruguai. Ali, o ônibus voltaria para o Brasil, levando quem não podia ou não queria continuar a viagem. O resto cruzaria a fronteira e seguiria por conta própria para Montevidéu.
Havia muita tensão no ônibus (...). Com a inesperada extensão da viagem, só quem tinha dinheiro ou poderia conseguir no Uruguai continuaria. Foi uma choradeira só. Imagina! Os caras estavam há seis dias no maior sufoco e na hora do filé... Nos despedimos dos que voltaram prometendo a vitória a qualquer custo. Do grupo original só ficaram 15. Atravessamos a fronteira de balsa e, imediatamente, pegamos um ônibus para Montevidéu. O jogo era na segunda-feira à noite, e nós chegamos domingo, no final da tarde.
(...) À noite fomos ao hotel da delegação e o Bosco (sempre ele) nos deu ingressos para o jogo. Foi uma noite tensa, pelo cansaço e pela emoção da decisão. Ninguém admitia perder. Nós tínhamos mais time, mas os chilenos bateram tanto em Santiago que deu medo do Flamengo se intimidar.
E começaram a chegar vários flamenguistas que tinham vindo ver o jogo. Três aviões lotados. Muita gente de carro, principalmente da fronteira. A cidade começou a ficar vermelha e preta. A alegria retornou. Na segunda-feira, hora do jogo, devíamos ser aproximadamente uns três mil.
(...)
Estava todo mundo tenso, estressado, cansado e duro. Nem a chegada de outro grupo de torcedores, em quatro aviões fretados, melhorou o nosso astral. Estávamos há uma semana sem dormir direito, com uma alimentação sofrível e ainda tendo que esperar pela decisão.
Apesar de tudo, estávamos confiantes. Afinal, tínhamos o melhor time do planeta: o melhor jogador do mundo e, para mim, o melhor que já vi jogar (e olha que eu vi Pelé, Maradona, Platini, Sócrates, Rivelino, Tostão...); um goleiro que deveria ser titular da Seleção (Raul); Leandro e Júnior, os melhores laterais do mundo; uma zaga de nível de Seleção (Marinho e Mozer); e, do meio campo pra frente, era até covardia – Andrade, Adílio, Tita, Nunes e Lico. No banco, jogadores de categoria e nosso técnico Paulo Cesar Carpegiani que, como jogador, depois do Zico, não vi melhor no Brasil. Como técnico, era um discípulo de Coutinho. Por trás de todos esses craques, o homem que era presidente, supervisor, auxiliar técnico, massagista etc.: Domingo Bosco. Como perder, irmão? Impossível.A torcida uruguaia era toda nossa. Havia também uns cinco mil argentinos flamenguistas. Para o lado do Chile, nem quinhentos gatos pingados. Começou o jogo e, com um minuto, o Andrade dividiu com um chileno e isolou a bola, que foi parar em Santiago. Eu olhei para o Zé Carlos, que estava do meu lado, e disse:
- Zé, o time tá mordido, vamos meter uns três neles.
E o Zé, que nunca foi muito católico, olhou para o alto, como se rezasse, e falou, com os olhos cheios de lágrima:
- Tomara, Moraes, tomara. Se a gente perde esta, vai ser duro de agüentar. Volto a pé.
(No ano seguinte, quando perdemos para o Peñarol, em pleno Maracanã, o Zé só foi embora uma da manhã, expulso pelo guarda que fechou o estádio. Andou até o Leblon! Se perdêssemos aquele jogo, era bem capaz dele querer sair andando até o Rio, sim.)
A razão da minha confiança era justamente a disposição do Andrade. Aprendi a ver nele o termômetro do Flamengo. Andrade era um jogador altamente técnico, acima da média. Se no começo do jogo ele entrasse rachando ou dando chutão para onde o nariz apontasse, aí o time todo jogava sério. É que as jogadas começavam com ele no meio campo. Se rebolasse, a coisa ia ficar ruim (...).
A pancadaria começou cedo e um chileno foi expulso. Metemos o primeiro (Zico). O Andrade se excedeu e também foi expulso. Mas em nenhum momento tive medo de perder a partida. Pelo menos, até o juiz anular um gol nosso e começarmos a perder muitas oportunidades. Aí, comecei a me preocupar, até que o Zico fez aquele gol de falta, no finzinho do jogo. Detalhe: na hora do gol do Galo, nossa galera, ao invés de gritar de felicidade, se abraçou e começou a chorar... O estádio Centenário todo pulando, gritando “é campeão!” e nós sentados e chorando. A galera sequer viu o soco do Anselmo no Mario Soto.Depois do desabafo entramos na folia, comemorando o título nas ruas de Montevidéu, ao som do samba da Ilha.
“É hoje o dia da alegria e a tristeza não pode pensar em chegar...”
Fizemos nossa festa na cidade, com buzinaço, grito e alegria inimaginável! “OBRIGADO SÃO JUDAS TADEU. OBRIGADO MEU DEUS”. A gente não cabia de felicidade. Porra, o meu Mengão era Campeão das Américas. Cantamos até às quatro da manhã. Aí, caiu a ficha! Tínhamos que voltar para o Rio, de “ônibus”, que saía para Porto Alegre via Chuí. De Porto Alegre, outro para o Rio. Seriam, aproximadamente, 60h. Somente a alegria nos dava força para agüentar a barra. Nego não agüentava mais segurar nem um tamborim. O cansaço era insuportável, mas tínhamos vencido a Libertadores, e agora era uma questão de honra ir a Tóquio, ver o Mundial. A América do Sul era nossa. Só faltava o Mundo!!!
Depois de 400 dias dentro de ônibus, finalmente chegamos a Porto Alegre, após uma viagem que parecia ter durado um mês. O pior é que, de ônibus, estávamos ainda a 24 horas do Rio. Nisso, o Zé Carlos me chamou num canto e disse:
- Moraes, não dá mais. Estou morto. Vamos para o Rio de avião?
Eu estava com o mesmo pensamento, mas como abandonar o barco? Como largar a galera? Pensei mais um pouco e chamei o Zé e o Cláudio.
- Zé, vamos juntar toda nossa grana com a da galera e ver quantas passagens de avião podemos comprar, topas?
- Claro, era isso que estava pensando!!!
Chamamos a galera e, conta daqui, junta dali, completa aqui, intera ali, deu para comprar todas as passagens. Não dava nem para acreditar que seria verdade. Que, dentro de 2h30, eu estaria em casa. Na praia...
Pegamos a grana e fomos ao balcão comprar as passagens; aí, ouvimos a voz da burocracia nacional:
- Lamento dizer, mas o vôo foi cancelado por falta de passageiros. Eu sou colorado, e quero ver vocês irem a pé para o Rio de Janeiro.
A princípio, pensávamos que era uma brincadeira, de muito mau-gosto, por sinal. Mas era sério: a Varig tinha cancelado o vôo. Protestamos, esperneamos, ameaçamos brigar e nada. Enquanto isso, calado num canto, o Zé Carlos assistia a tudo. Num certo momento, ele se vira e vai em direção a uma cabine telefônica. Uns minutos depois ele volta, mais quieto ainda, e me diz:
- Moraes, sai de perto da confusão e vamos ver como o Brasil funciona.
Sem entender nada, perguntei:
- O que você quer dizer com isso?
- Liguei para a minha avó, no Rio, e pedi uma mãozinha. Ela ainda conhece umas pessoas na Varig e o sobrenome ainda vale alguma coisa (o avô do Zé era um general grandão, que chegou a ministro e disputou a Presidência da República com o Gal. Médici).
Não demorou muito o burocrata colorado, muito a contragosto, chamou o grupo:
- O voô foi reaberto, vocês podem comprar as passagens e embarcar - falou, cheio de gentilezas.
Que babaca. Nós saímos rindo da cara dele. Embarcamos e 3 horas depois eu estava no calçadão, contando a aventura pra galera.
No dia seguinte, já estávamos embarcando para Volta Redonda – decisão do terceiro turno do Campeonato Carioca. Continuamos a colecionar títulos e fomos Campeões Cariocas, batendo o Vasco em três partidas memoráveis. Antes, tivemos que testemunhar a morte do grande Capitão Cláudio Coutinho, o maior técnico que o Brasil já teve.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
CM, seus asseclas e o cidadão otário
Por Caius Valladares*O tempo passa e o CM (desse jeito mesmo, uma “sigla”, uma alcunha tipo PCC, tipo CV, tipo ADA e outros cânceres sociais) continua o mesmo.
Aliás, pensando melhor, piora.
Notem que em todas as gestões do CM a história se repete: cidade abandonada na essência do dia-a-dia, sinais de trânsitos queimados, buracos no asfalto e nas calçadas, mendicância em progressão geométrica, ruas sujas, parques mal cuidados, serviços públicos ineficientes, enfim durante os 95% iniciais do mandato, 0% de trabalho.
Nesse período, o Sr. CM fica apenas criticando o governo dos outros (municípios, estados e países) e repassando as mazelas e necessidades sociais. Tudo que se encaminha a ele (o homem tem mais de 10 e-mails), ele encaminha para um assessor te copiando.
O e-mail do assessor vem oculto e o texto é padrão:
“-JB, para providências !”
CM defende que o Universo é palco de conspirações políticas visando implodir o Rio de Janeiro, mas ele, CM de la Mancha, cavaleiro andante existe e nos ama, o Rio continua lindo...
Lindo para quem cara pálida?
Só se for lindo da varanda lá em São Conrado, pois aqui de baixo só vejo sobreviver beleza nas obras naturais que antecedem o homem, algumas poucas que vieram pela mão do homem e em cada vez mais raras manifestações populares.
Quando o cidadão já está sofrendo de broxidão, vocal vem o CM cavalgando em seus assessores reluzentes com aquele mutirão dos 5% (o restante do mandato).
É rapaziada, agora vem aí a quebradeira, obra pra todo lado, tudo feito a toque de caixa, devidamente registrado pela mídia para virar programa político no futuro. Tudo factóide, plagiando o próprio, para que seja o velho Denorex, que parecia mas não era, tudo bonito no vídeo dizendo aos incautos (e como os temos!!!) que o CM trabalhou pacas pela cidade.
Lembram do primeiro Rio-Cidade ?
Lembram dos adesivos nos veículos “EU ODEIO CM”?
Lembram dos momentos malévolos quando para ir da Lagoa a Vila Isabel investia-se 3 horas de engarrafamento?
Pois é galera, estamos velhos e lá se vão aproximadamente 10 anos que estamos vendo este simbiótico CM por aí.
Simbiótico ?
Sim, a gente dá votos e ele nos dá bananas e imposto!
Notem que o IPTU subiu a montanha do Himalaia enquanto que o “desconto” do IPTU subiu num caixote de feira.
Pagar IPTU? Só (s)em Juízo!
Aliás, pensando melhor, piora.
Notem que em todas as gestões do CM a história se repete: cidade abandonada na essência do dia-a-dia, sinais de trânsitos queimados, buracos no asfalto e nas calçadas, mendicância em progressão geométrica, ruas sujas, parques mal cuidados, serviços públicos ineficientes, enfim durante os 95% iniciais do mandato, 0% de trabalho.
Nesse período, o Sr. CM fica apenas criticando o governo dos outros (municípios, estados e países) e repassando as mazelas e necessidades sociais. Tudo que se encaminha a ele (o homem tem mais de 10 e-mails), ele encaminha para um assessor te copiando.
O e-mail do assessor vem oculto e o texto é padrão:
“-JB, para providências !”
CM defende que o Universo é palco de conspirações políticas visando implodir o Rio de Janeiro, mas ele, CM de la Mancha, cavaleiro andante existe e nos ama, o Rio continua lindo...
Lindo para quem cara pálida?
Só se for lindo da varanda lá em São Conrado, pois aqui de baixo só vejo sobreviver beleza nas obras naturais que antecedem o homem, algumas poucas que vieram pela mão do homem e em cada vez mais raras manifestações populares.
Quando o cidadão já está sofrendo de broxidão, vocal vem o CM cavalgando em seus assessores reluzentes com aquele mutirão dos 5% (o restante do mandato).
É rapaziada, agora vem aí a quebradeira, obra pra todo lado, tudo feito a toque de caixa, devidamente registrado pela mídia para virar programa político no futuro. Tudo factóide, plagiando o próprio, para que seja o velho Denorex, que parecia mas não era, tudo bonito no vídeo dizendo aos incautos (e como os temos!!!) que o CM trabalhou pacas pela cidade.
Lembram do primeiro Rio-Cidade ?
Lembram dos adesivos nos veículos “EU ODEIO CM”?
Lembram dos momentos malévolos quando para ir da Lagoa a Vila Isabel investia-se 3 horas de engarrafamento?
Pois é galera, estamos velhos e lá se vão aproximadamente 10 anos que estamos vendo este simbiótico CM por aí.
Simbiótico ?
Sim, a gente dá votos e ele nos dá bananas e imposto!
Notem que o IPTU subiu a montanha do Himalaia enquanto que o “desconto” do IPTU subiu num caixote de feira.
Pagar IPTU? Só (s)em Juízo!
*Caius Valladares é bacharel em Comunicação Social e, como o dono do blog, Flamengo, botonista e de Vila Isabel.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Corridas silenciosas?
Por Roberto Brandão (publicado no site Grande Prêmio, coluna Retrovisor)
O filme "Grand Prix", até hoje insuperável em seu gênero, inicia com a imagem de um escapamento em silêncio que, após o motor ser ligado, multiplica-se por toda a tela. O som vai num crescendo, partindo de um ruído para uma sinfonia de arrepiantes roncos. Não há quem consiga ficar alheio a estas cenas e, para os mais ligados, não há coração que não dispare. O barulho ensurdecedor e excitante é parte fundamental da emoção de uma corrida.
No entanto, vivemos uma nova realidade mundial. A consciência ambiental, o fim das reservas de petróleo e a ameaça de um aquecimento global mais cedo do que se esperava transformam rapidamente indústrias, produtos e modos de vida. Uma das recentes invenções, já em franco desenvolvimento e em fase de produção, são os automóveis movidos a eletricidade ou com células de hidrogênio, híbridos ou não.
Exceção feita aos híbridos, parece que estamos frente ao final da era do motor a combustão. Motores elétricos ou com células de hidrogênio não têm explosão. Não formam gases que necessitem de um sistema de escapamentos para dissipá-los. Assim, teoricamente, não fazem barulho.
Pode-se argumentar que furadeiras, brocas de dentista e motores dos carrinhos de autorama produzem ruídos. Mas nada próximo do som ensurdecedor dos poderosos propulsores a explosão, especialmente quando estão alinhados para uma largada. Adicione-se à provável falta de ruídos ensurdecedores a também ausência dos óleos e seus diferentes aromas, de graxa e da gasolina. Aquele ambiente místico das corridas, que costuma freqüentar nosso imaginário, tornar-se-á muito diferente do que é hoje.
Quem teve o prazer de ouvir o ronco do motor V12 da Ferrari 512 descendo o antigo retão em Interlagos, ou de lembrar o pipocar dos V8 Cosworth ao reduzirem para uma curva, ou mesmo o ensurdecedor e agudo som dos V12 Matra, dos 6 cilindros dos Opala Stock Car, do simpático ruído embaralhado dos motores dos Fusca Divisão 3, deve, neste momento, estar tentando imaginar esta corrida silenciosa. Aquele que, como tantos de nós, se orgulhava, lá pela década de 70, de reconhecer o motor que descia a reta, mesmo com os olhos vendados, lê este texto com incredulidade.
Sem estes ingredientes, só nos resta imaginar ou sentir o coração bater mais forte vendo velozes automóveis realizarem incríveis manobras e peripécias, no mais absoluto silêncio. Como reagiremos? E a emoção, sem estes ingredientes, será a mesma? Será que seremos atraídos pelo desejo de assistir alguma competição assim?
Apesar de coerente com os novos tempos, com a sustentabilidade do planeta, eu não consigo imaginar. Só sei que será muito estranho. Poderemos nos adaptar, mas será como sexo sem gemido, orgasmo sem gritos, tristeza sem choro, amor sem brilho nos olhos.
O filme "Grand Prix", até hoje insuperável em seu gênero, inicia com a imagem de um escapamento em silêncio que, após o motor ser ligado, multiplica-se por toda a tela. O som vai num crescendo, partindo de um ruído para uma sinfonia de arrepiantes roncos. Não há quem consiga ficar alheio a estas cenas e, para os mais ligados, não há coração que não dispare. O barulho ensurdecedor e excitante é parte fundamental da emoção de uma corrida.
No entanto, vivemos uma nova realidade mundial. A consciência ambiental, o fim das reservas de petróleo e a ameaça de um aquecimento global mais cedo do que se esperava transformam rapidamente indústrias, produtos e modos de vida. Uma das recentes invenções, já em franco desenvolvimento e em fase de produção, são os automóveis movidos a eletricidade ou com células de hidrogênio, híbridos ou não.
Exceção feita aos híbridos, parece que estamos frente ao final da era do motor a combustão. Motores elétricos ou com células de hidrogênio não têm explosão. Não formam gases que necessitem de um sistema de escapamentos para dissipá-los. Assim, teoricamente, não fazem barulho.
Pode-se argumentar que furadeiras, brocas de dentista e motores dos carrinhos de autorama produzem ruídos. Mas nada próximo do som ensurdecedor dos poderosos propulsores a explosão, especialmente quando estão alinhados para uma largada. Adicione-se à provável falta de ruídos ensurdecedores a também ausência dos óleos e seus diferentes aromas, de graxa e da gasolina. Aquele ambiente místico das corridas, que costuma freqüentar nosso imaginário, tornar-se-á muito diferente do que é hoje.
Quem teve o prazer de ouvir o ronco do motor V12 da Ferrari 512 descendo o antigo retão em Interlagos, ou de lembrar o pipocar dos V8 Cosworth ao reduzirem para uma curva, ou mesmo o ensurdecedor e agudo som dos V12 Matra, dos 6 cilindros dos Opala Stock Car, do simpático ruído embaralhado dos motores dos Fusca Divisão 3, deve, neste momento, estar tentando imaginar esta corrida silenciosa. Aquele que, como tantos de nós, se orgulhava, lá pela década de 70, de reconhecer o motor que descia a reta, mesmo com os olhos vendados, lê este texto com incredulidade.Sem estes ingredientes, só nos resta imaginar ou sentir o coração bater mais forte vendo velozes automóveis realizarem incríveis manobras e peripécias, no mais absoluto silêncio. Como reagiremos? E a emoção, sem estes ingredientes, será a mesma? Será que seremos atraídos pelo desejo de assistir alguma competição assim?
Apesar de coerente com os novos tempos, com a sustentabilidade do planeta, eu não consigo imaginar. Só sei que será muito estranho. Poderemos nos adaptar, mas será como sexo sem gemido, orgasmo sem gritos, tristeza sem choro, amor sem brilho nos olhos.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
TAM, Pan etc.
Tentei passar os últimos dias sem discutir o Pan (política e esportivamente) e sem assuntar o acidente da TAM. "Cansei de ser ranzinza e ninguém está nem aí. Na semana que vem tem outro escândalo e todo mundo esquece o que aconteceu antes", foi o que eu pensei. Afinal, alguém lembra do Renan? Enfim, tentei mas não consegui. Reproduzo abaixo a coluna do Juca Kfouri na Folha de São Paulo de segunda-feira.
Relaxa, top top top, e goza. É ouro!
Impressiona como o país cada vez mais se acostuma a fingir e a viver, e a morrer, das próprias mentiras
PEGUE-SE QUALQUER exemplo, mas fiquemos com os mais recentes. No esporte, para começar. O milésimo de Romário é um bom caso. O Pan-2007, outro.
Ora, todos sabemos que o Baixinho, fabuloso, maior jogador que uma grande área já viu, criou um objetivo para ele mesmo e todos entraram na festa. Viva! Mentira inofensiva. Mas mentira. Mentirinha, digamos.
Com o Pan é mais grave, pelo uso do dinheiro público sem a menor cerimônia, um dinheiro que os passageiros que cruzam o país pelos ares agradeceriam se o vissem mais bem gasto. E aí a falsidade é grave, porque mata.
Em torno do Pan, a omissão é medalha de diamantes.
Thiago Pereira, que é um nadador digno de todo respeito e não tem a menor culpa do que se omite, é tratado como quem superou Mark Spitz. E, friamente, é verdade.
Mas meia verdade, muitas vezes pior que a mentira pura, por mais difícil de ser desmascarada.
Ora, Spitz, ao ganhar cinco ouros no Pan de Winnipeg, em 1967, simplesmente bateu três recordes mundiais, como bateu outros sete ao ganhar mais sete medalhas de ouro em Munique, nos Jogos Olímpicos de 1972. Compará-lo a Pereira não honra nenhum dos dois.
Fiquemos por aqui, para falar do que é mais chocante, porque sempre com a cumplicidade da mídia.
A tragédia da TAM, que obscureceu o Pan, é rica em ensinamentos. Começou não é de hoje, com o escândalo do Sivam, no governo anterior, e continuou impávida e colossal de lá para cá. Uma frase debochada e ultrajante da ministra do Turismo, um gesto raivoso e moralmente pornográfico do assessor presidencial, um pronunciamento vazio e perplexo do presidente que nunca havia visto uma sucessão de acontecimentos tão caóticos nos aeroportos nacionais e pronto!
Tudo continua como antes, a não ser, é claro, para quem morreu e para quem ficou por aqui, na saudade.
Ora, nem Romário é um artilheiro comparável a Pelé nem Pereira é o novo Spitz nem este governo é mais ou menos culpado que o anterior. Somos todos responsáveis, ou quase todos, que continuamos a voar como voamos, a votar como votamos, a festejar como festejamos e a reclamar mais dos que são rigorosos do que daqueles que são complacentes.
Dar ao Pan-2007 sua verdadeira dimensão é, para muitos, sintoma ou de bairrismo ou de mau humor. E a crise aérea vira exploração política.
Mas o que se vê na TV no Pan, e o que se viu e ainda se verá na TV sobre o avião da TAM, é de dar vergonha de como se faz jornalismo/sensacionalismo no Brasil. O ufanismo sem limites e a demagogia sentimentalóide não nos levarão a lugar algum, a não ser neste em que estamos, do caos, da falta de perspectiva e da acomodação cúmplice e criminosa.
Os resultados superdimensionados do Pan-2007 inevitavelmente se transformarão em frustração quando Pequim chegar, no ano que vem. Ou alguém acredita mesmo que o Brasil superou o Canadá, que é mais saudável e pratica mais esporte que o país norte-americano?
Brasileiro com muito orgulho? Quadro de medalhas: 200 mortos.
•••
Relaxa, top top top, e goza. É ouro!
Impressiona como o país cada vez mais se acostuma a fingir e a viver, e a morrer, das próprias mentiras
PEGUE-SE QUALQUER exemplo, mas fiquemos com os mais recentes. No esporte, para começar. O milésimo de Romário é um bom caso. O Pan-2007, outro.
Ora, todos sabemos que o Baixinho, fabuloso, maior jogador que uma grande área já viu, criou um objetivo para ele mesmo e todos entraram na festa. Viva! Mentira inofensiva. Mas mentira. Mentirinha, digamos.
Com o Pan é mais grave, pelo uso do dinheiro público sem a menor cerimônia, um dinheiro que os passageiros que cruzam o país pelos ares agradeceriam se o vissem mais bem gasto. E aí a falsidade é grave, porque mata.
Em torno do Pan, a omissão é medalha de diamantes.
Thiago Pereira, que é um nadador digno de todo respeito e não tem a menor culpa do que se omite, é tratado como quem superou Mark Spitz. E, friamente, é verdade.
Mas meia verdade, muitas vezes pior que a mentira pura, por mais difícil de ser desmascarada.
Ora, Spitz, ao ganhar cinco ouros no Pan de Winnipeg, em 1967, simplesmente bateu três recordes mundiais, como bateu outros sete ao ganhar mais sete medalhas de ouro em Munique, nos Jogos Olímpicos de 1972. Compará-lo a Pereira não honra nenhum dos dois.
Fiquemos por aqui, para falar do que é mais chocante, porque sempre com a cumplicidade da mídia.
A tragédia da TAM, que obscureceu o Pan, é rica em ensinamentos. Começou não é de hoje, com o escândalo do Sivam, no governo anterior, e continuou impávida e colossal de lá para cá. Uma frase debochada e ultrajante da ministra do Turismo, um gesto raivoso e moralmente pornográfico do assessor presidencial, um pronunciamento vazio e perplexo do presidente que nunca havia visto uma sucessão de acontecimentos tão caóticos nos aeroportos nacionais e pronto!
Tudo continua como antes, a não ser, é claro, para quem morreu e para quem ficou por aqui, na saudade.
Ora, nem Romário é um artilheiro comparável a Pelé nem Pereira é o novo Spitz nem este governo é mais ou menos culpado que o anterior. Somos todos responsáveis, ou quase todos, que continuamos a voar como voamos, a votar como votamos, a festejar como festejamos e a reclamar mais dos que são rigorosos do que daqueles que são complacentes.
Dar ao Pan-2007 sua verdadeira dimensão é, para muitos, sintoma ou de bairrismo ou de mau humor. E a crise aérea vira exploração política.
Mas o que se vê na TV no Pan, e o que se viu e ainda se verá na TV sobre o avião da TAM, é de dar vergonha de como se faz jornalismo/sensacionalismo no Brasil. O ufanismo sem limites e a demagogia sentimentalóide não nos levarão a lugar algum, a não ser neste em que estamos, do caos, da falta de perspectiva e da acomodação cúmplice e criminosa.
Os resultados superdimensionados do Pan-2007 inevitavelmente se transformarão em frustração quando Pequim chegar, no ano que vem. Ou alguém acredita mesmo que o Brasil superou o Canadá, que é mais saudável e pratica mais esporte que o país norte-americano?
Brasileiro com muito orgulho? Quadro de medalhas: 200 mortos.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
O ano em que experimentamos a liberdade

Recebi o texto abaixo por e-mail, da Jamile Attie, pelo Clube de Comunicação. É de Maria Adelaide Amaral, sobre a questão da auto-censura, em pauta nos últimos dias, e publicado no dia 4 de julho, no OESP.
•••
Toda vez que escuto O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, lembro-me da esperança que nos invadiu em 1979, com os exilados voltando, os ventos da liberdade soprando e Papa Highirtie finalmente no palco, anos depois de sua encenação ter sido proibida pelo governo militar. Oduvaldo Viana Filho não viu sua peça encenada. Como também não assistiu à montagem de Rasga Coração (reprodução do cartaz ao lado), texto escrito em seu leito de morte e igualmente censurado. Tinha falecido em 1974. Nesse ano dava meus primeiros passos como dramaturga, mas só consegui realmente estrear em 1978, com Bodas de Papel.
Lembro-me da nossa tensão no ensaio para o censor, Madeira (não recordo o prenome), um homem bem-educado, senhor do nosso trabalho e da nossa vida. Quando o espetáculo foi aprovado sem cortes, respiramos aliviados e gratos à boa vontade do Sr. Madeira. No entanto, isso era apenas uma das faces perversas da censura: quando se depende da boa vontade de um censor, significa que os critérios que permitem ou proíbem uma obra são pessoais e subjetivos.
Tive muita sorte com a liberação de Bodas de Papel. Já com Cemitério sem Cruzes a história foi diferente. O texto fazia parte da Feira Paulista de Opinião, promovida por Ruth Escobar em 1978, e dela também participavam obras de Dias Gomes, Jorge de Andrade, Carlos Queiroz Telles, Lauro César Muniz, Carlos Henrique Escobar, Gianfrancesco Guarnieri, João das Neves, Leilah Assunção e Márcio de Souza. O evento não chegou a ser realizado porque todas as obras foram proibidas em bloco. Todos nós fomos censurados numa ação decidida pelo próprio Ministério da Justiça. Por que? Porque é assim que acontece nas ditaduras. A premissa é a de que a população carece de maturidade e discernimento para avaliar o que é melhor para si e, portanto, necessita de um grande tutor – o Estado. Cabe a ele decidir o que é melhor para o povo e, não por coincidência, esse ‘melhor’ é tudo que colabora para a estabilidade do regime e a continuidade no poder de seus governantes.
- Está certo. Eles têm a censura deles. Nós vamos ter a nossa – costumava dizer um colega da Abril Cultural, militante de conhecido partido de esquerda (suponho que ainda seja), naqueles anos 70. A primeira vez que ouvi a frase fiquei estarrecida. Alguns companheiros riram, mas não era piada. Ele falava sério. Mas nós não queríamos nenhuma censura, nem de direita nem de esquerda.
Nos anos 70, clamávamos por liberdade para que nunca mais nenhum autor morresse, como Vianinha, sem ver seus textos encenados; para que nunca mais uma peça premiada pelo Serviço Nacional de Teatro (A Patética, de João Ribeiro Chaves) fosse sumariamente proibida porque tratava da morte de um jornalista (Vladimir Herzog) nos porões da ditadura; para que nunca mais razões arbitrárias, escusas ou absurdas determinassem a mutilação ou proibição de um filme, peça ou livro, ou impedissem uma notícia de ser veiculada. Em nome da liberdade abrigamos amigos perseguidos pelos órgãos de repressão, angariamos fundos para os metalúrgicos em greve no ABC, sustentamos a imprensa nanica, saímos às ruas e subscrevemos manifestos e abaixo-assinados contra a repressão.
Para quem viveu os anos de chumbo da ditadura militar e teve que se haver com a truculência ou irracionalidade das decisões da Censura, os sinais de abertura que se fizeram sentir em 1979, eram puro oxigênio. A liberdade não era mais uma palavra, um libelo, um alvo remoto, um destino a atingir. Enfim podíamos respirar, sonhar, escrever, criar livremente. Em agosto de 1979, Cecil Thiré ligou do Rio pedindo para que eu reescrevesse um diálogo fundamental entre os dois personagens centrais de A Resistência, que ele estava dirigindo no Teatro Gláucio Gil. Tratava-se de Léo, um ex-preso político e Luis Raul, que tinha sido de esquerda e acabara aderindo ao movimento hippie. Era um momento de embate, em que as posições políticas e as razões de cada um seriam confrontadas. Um ano antes a cena inviabilizaria a peça inteira. Quando o texto passou incólume pela Censura, senti que os dias de D. Solange estavam contados.
Quase 30 anos depois ressurge o fantasma, não de D. Solange mas o da posição daquele meu colega que justificava a censura do governo militar antevendo a do próprio partido. O colega em questão felizmente não faz parte dos quadros do governo mas as suas convicções continuam ativas a despeito do colapso do mundo que as originou. Não foi para exumar maus cadáveres que saímos à rua lutando pelas Diretas, não foi para isso que combatemos o bom combate. Mas se for preciso combateremos outra vez.
Maria Adelaide Amaral
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