sábado, 8 de novembro de 2008

Os domingos e o vento

“Que domingo é hoje?” A primeira vez que um de nós fez essa pergunta, estávamos – eu, Armando, Sérgio e Pimenta – a aproximadamente sete nós de velocidade, mais ou menos às dez da manhã de terça-feira, fazendo a travessia entre Ilhabela e Santos. Estávamos a bordo do Fandango, o veleiro no qual a Equipe Boteco 1 – faria sua primeira participação na Regata Santos-Rio.

Seríamos sete tripulantes, sete estreantes na regata oceânica mais tradicional do Brasil. A história dessa participação começa agora, em uma espécie de diário de bordo.

1º domingo: terça-feira, 21 de outubro
Na verdade, o início foi na segunda à noite, embarcando com o Armando para Ilhabela. Chegamos a São Sebastião às seis da manhã e fomos direto para balsa que nos levaria à ilha. Tempo fechado e muito vento. Leste. Apesar do tempo ruim, vento favorável para a travessia de 60 milhas (mais de 110km) até Santos.

Eu, Armando e Sérgio, saindo de Ilhabela. Foto do Pimenta.
Pimenta já estava a postos no píer da balsa, pescando enquanto nos esperava. Enquanto isso, Sérgio já fazia os últimos preparativos a bordo do Fandango. O objetivo era sair o mais cedo possível para chegar ao Iate Clube de Santos (que fica no Guarujá) com dia claro. Deixamos a poita e motoramos até o final do canal. Pouco mais de 20 minutos.

Velas em pé, o sol apareceu e eu aproveitava para conhecer o barco, entender seu comportamento, suas reações. Durante a viagem, conseguimos manter velocidade média próxima de sete nós. Com o balão em pé - por um bom tempo com armação tri sail -, o barco voava e tivemos pico de 9,6 nós (18km/h).

Sérgio nunca tinha testado o Fandango com armação tri sail. Andando a quase 10 nós, acho que ele gostou...
Na chegada a Santos, velas pra baixo e motor para entrar pelo canal que leva ao maior porto do Brasil e ao clube. “Porta a porta”, 10 horas. Do clube direto para o hotel e o encontro com a presidente para nosso primeiro jantar. Pergunta daqui, pergunta dali, tem um restaurante logo ali. Depois de seis quadras, encontramos as portas fechadas e acabamos voltando para o restaurante que fica em frente ao hotel. Depois de comer, cama.

Por enquanto, a previsão para o final de semana da largada era de vento a favor, variando entre 6 e 8 nós.

2º domingo: quarta-feira, 22 de outubro
Acordei por volta das 9h, com o ronco do Oscar. Ele chegou ao Guarujá às 6h30 e foi direto para a cama. Quando eu e Armando abrimos os olhos, ele já estava dormindo e nós nem o vimos entrar no quarto. Nosso objetivo ao chegar a Santos três dias antes da largada era treinar e nos acostumar o máximo possível com o barco.

Nossa manhã foi meio burocrática: dar entrada no clube, fazer a inscrição, ler a instrução de regatas e conferir todas as exigências. Algumas delas não eram cumpridas pelo Fandango e tratamos de resolvê-las. Liga para o Rio para providenciar alguns itens e outros detalhes, corre na farmácia pra montar o kit de primeiros socorros, acha um capoteiro para fazer uma linha de vida... Enfim, correria total.

Nossa programação para o dia era o treino noturno. Como não achamos um lugar legal para almoçar, resolvemos comer no clube. PQP!!!! A pedida foi bife a cavalo para quase todos. Recebemos um “bife à pônei”... E depois do lauto almoço que não deu nem pra tapar os buracos dos dentes, todos a bordo.

Auto-explicativo (tem hífen?)
Saímos do clube quase às cinco, ainda com muito sol e um calor da porra. Lá fora, merreca. Mesmo assim, com o secretário (eu) e os dois proeiros (Oscar e Pimenta) no barco, começamos a realizar as manobras: camba para um lado, camba pro outro, sobe balão, desce balão, jibe pra lá e pra cá, pilling de genoa. Com dia claro e escuro. Já quase às nove, começou a ameaçar chuva. E como não precisávamos molhar o barco à toa nem arriscar pegar uma gripe, sobe o balão e toca para o clube.

No início do dia, a previsão ainda indicava vento a favor durante todo o final de semana, variando entre 4 e 5 nós. À noite, começamos a enxergar a merreca...

3º domingo: quinta-feira, 23 de outubro
A manhã da véspera da largada nos trouxe mais um tripulante e um monte de outras tarefas. Mas nossa preocupação era o vento. Ou a falta dele. A previsão que vimos enquanto tomávamos café da manhã transformava a ameaça de merreca em certeza. Ao mesmo tempo, nos dava uma esperança: lá fora, longe de terra, uma pequena (muito pequena, na verdade) frente subia a costa e podia nos empurrar para o Rio. Se conseguíssemos estar onde deveríamos na hora certa, teríamos grande chance de brigar até pela vitória.

Igor nos encontrou no clube. Agora só faltavam Humberto e Morcegão. Saímos para treinar logo cedo, pois precisaríamos fazer as compras para abastecer o barco na parte da tarde. Ficou acertado que o jovem estoniano de Campinas faria a secretaria, alternando os turnos comigo. Aproveitei para deixar ele trabalhar bastante e se acostumar com a função. Se todos eram estreantes na regata, o caso do Igor era mais grave, pois só tinha velejado duas vezes na vida. É ou não uma bela maneira de começar de verdade?

Na água, tudo normal e depois de três horas e meia, voltamos para o clube. Da estrada, recebi uma ligação:
- Bom dia meu secretário!
- Cadê você comandante?
- Cambando pra comissão...

Aqui é bom abrir um parêntese antes que vocês me imaginem tomando notas ou sentando no colo do chefe. A secretaria (ou o meio do barco) é de onde desembocam e se regulam todos os cabos do barco, com exceção das escotas.

Paramos para almoçar no boteco na porta do clube. Santa comida da mamãe!!!! Arroz, feijão, salada, ovos, farofa e carne que não acabava mais. Morcegão chegou a bordo da viação La Torre, pouco depois da nossa presidente, coordenadora e única operária da nossa equipe de terra, ClauPenPen. Para encerrar com chave de ouro nossa concentração para a prova, 20 garrafas sobre a mesa.

À tarde, supermercado e abastecimento do barco. À noite, nossa extraordinária com as presenças dos sete tripulantes (Humberto chegou!), Armando (que nos treinou e correu no Viva), La Torre e Helô, Claudia, Clícia e Guta, e Nio. Estávamos prontos.

4º domingo: sexta-feira, 24 de outubro

Igor, Oscar, eu e Pimenta preparando o barco para zarpar. Foto do Jorge Somers.
É hoje!!! Teve gente que dormiu mal. Teve gente que acordou no meio da madrugada, como se já estivesse fazendo turno embarcado... Ansiedade e adrenalina é assim mesmo. Chegamos cedo no clube e encontramos o redivivo Jorge Sommers, que foi nos dar um abraço e deixar sua energia boa. Últimos preparativos, embarque e toca pra linha de largada.

A previsão era a mesma. Muita merreca e toca pra fora pra tentar encontrar aquela pequena frente... A tripulação consultou três sites e ainda confirmou tudo com nosso navegador, que estava afundado em mapas e previsões em sua base de BH.

O início da regata foi quase animador. Andávamos devagar, mas andávamos. Foto do Marcio Finamore.
Largamos com um ventinho até razoável e, com média de quatro nós de velocidade, andamos umas 25 ou 30 milhas. Comandante Sérgio fez questão de que todos a bordo timoneassem pelo menos meia hora, para se acostumar com barco. Fui o último da série e anoiteci no leme. Como gostei da brincadeira, fui ficando até o vento e o dia acabarem. Aí...

5º domingo: sábado, 25 de outubro
Nosso sábado começou, na verdade, quando o vento acabou cerca de uma hora depois do anoitecer de sexta-feira. Como disse, o Sergio fez com que todos timoneassem o barco por, pelo menos, meia hora após a largada. Eu fui o último e anoiteci no leme. Pra mim, tudo era novidade. Nunca velejei no leme em regata. Raramente, voltando para o clube ou indo para a raia. E agora, já estava levando o barco de dia e de noite.

Sinceramente, não fiquei preocupado se estava fazendo bem ou mal, apenas tratei de aproveitar a chance de aprender mais alguma coisa.

Era mais ou menos 9 da noite, quando o vento parou de vez e pedi para alguém me substituir. E se falo que o sábado começou nesse momento é porque ficamos a noite e o dia inteiro praticamente boiando. De vez em quando, conseguíamos velejar por uma ou uma hora e meia, ficando parado por mais três ou quatro.

O sábado amanheceu com o mar parado e as velas murchas.
Alguns momentos podem ilustrar o que aconteceu. Durante a noite, boiávamos de tal maneira e as velas batiam tanto de um lado para o outro que chegamos a baixar a genoa por duas vezes, para poupá-la. A outra curiosidade foi um estranho bate-papo entre a tripulação e um pingüim. Estávamos fritando sob um sol inclemente, sem vento algum que nos desse uma esperança, quando o pobre coitado passou por nós, levantou sua cabeça e nos cumprimentou. Pra quê? De repente, os sete estavam em uma animada conversa, falando fluentemente o pingüinês...

Tibetano, o pingüim com quem conversamos muito sobre o sentido da vida...

Tínhamos a promessa daquela pequena frente que entraria no final da manhã. Mas ela não veio. E depois de passar o dia inteiro praticamente sem vento e sob o sol forte, conseguimos renovar nossas esperanças. Já passava das sete da noite, o dia já começava a escurecer, quando o Pimenta olhou pra trás e disse “acho que vai entrar...”.

Junto com uma brisinha, chevou um chuvisco e algumas ondas. Dava pra ver que as nuvens estavam aceleradas, então era questão de tempo. Começamos a nos organizar. Só três em cima, os outros quatro na cabine. Eu estava no leme outra vez... Casaco, cinto de segurança e lá vamos nós. O vento chegou e o Pimenta, com o GPS em punho, começou a cantar a velocidade: 3,5; 4,2; 4,8; 5,2; 5,5; 5,9; 6,1; 6,4 nós!

Casaco e cinto de segurança para tocar o barco no vento forte e de noite. Esperança de completar a regata durou 10 ou 15 minutos.
Estávamos em contravento e aos poucos o 'Fandanguinho' foi adernando. Da cabine, Morcegão surgiu todo pimpão, pronto para usar pela primeira vez a roupa de tempo que, no Rio, não sai do armário. Quando chegamos aos cinco nós, o batcomandante ia soltando a grande quando o Pimenta gritou “Nããããããããããooooooo Morcegão!!!! Ainda falta muito pra ficar difícil”. Lá embaixo, mais um foi a barla para equilibrar o barco enquanto as ondas iam subindo. Todos pensávamos: “agora vai, vamos chegar no Rio”.

Tudo isso durou dez, talvez 15 minutos. De repente, o vento parou de novo e o céu estava absolutamente estrelado... Foi-se, com o vento, nosso fio de esperança.

6º domingo: domingo, 26 de outubro
Às dez da noite de sábado terminou a reunião. Os sete no deck. Fui voto vencido e ligamos o motor. Depois de pouco mais de 34 horas e 62 milhas percorridas (pouco menos de um terço do percurso), o Fandango ligou o motor. Já se passaram duas semanas e ainda não me conformo em não terminar a travessia, mesmo que não chegássemos dentro do tempo para classificar. Regata tem hora para começar e não tem hora para acabar. Estou frustrado até agora, acho que vou ficar assim até a largada do ano que vem...

Estávamos a 75 milhas da costa (139 km) e motoramos por 14 horas em direção a Angra dos Reis. Tentamos comunicar a desistência imediatamente, mas como o rádio não respondia, só conseguimos fazê-lo às oito da manhã.

Chegando em Angra, contamos com a ajuda dos hermanos.

Por volta do meio dia, na entrada da baía de Angra, ficamos sem combustível e sem vento, mas conseguimos ajuda de um casal de pai e filha, argentinos a bordo do veleiro Paraná. Nos deram dois litros de diesel e foi a conta. O motor morreu na hora de atracarmos no posto de gasolina.

Na marina, arrumamos o barco, tomamos banho, almoçamos e, pelas quatro da tarde, a tripulação se separou. Morcego, Igor, Humberto e este que vos escreve seguiram para o Rio de carro. Sergio, Pimenta e Oscar trouxeram o barco para o Iate Clube, sede do Circuito Rio que disputaríamos no final de semana seguinte.

Elucubrações e outros domingos
No Circuito – felizmente – beliscamos o pódio. Foram mais três domingos especiais. Terminamos em terceiro e, pela terceira vez, o Boteco 1 levou um troféu pra casa. A tripulação do Circuito foi comandada pelo Ricardo ‘Amigo do Lodão’ e formada por Pimenta, Oscar, Lulu (sexta), Morcegão e Alfeu (sábado). Eu também estava lá.

No Circuito Rio, o Fandango finalmente encontrou o vento. Foto da galeria do ICRJ no Picasa.

Primeiro e segundo colocados foram indiscutíveis. E a briga pelo pódio, com Star Treck e Calamar Rio, uma delícia. Apertada até a linha de chegada da última regata. Dessa vez nós ganhamos. Da próxima, quem sabe. Vai importar, sempre, estar satisfeito por velejar quando chegarmos ao píer.

É claro que velejar com esses caras é algo sensacional. Seu Ricardo é, mesmo quando calado, uma aula de vela ambulante. A amizade entre todos é de emocionar. Eu, não tenho do que reclamar. Apesar de não termos terminado a Santos-Rio, aprendi muito. Sérgio, assim como Ricardo, é um grande professor.

Também não posso deixar de agradecer o patrocínio do SuperCarioca.com, o apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e a parceria do projeto Três no Mundo.

Por hora, beijos e abraços a quem de direito. Ano que vem, a largada será no dia 23 de outubro, por volta do meio dia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os subúrbios e Santos-Rio

Estava mesmo com saudades de escrever. Algo que não seja trabalho, que fique claro. E quase dois meses e meio sem pingar alguma coisa por aqui é muito tempo. Fruto da rotina do emprego e trocentas outras circunstâncias. Por conta disso, já aviso e peço desculpas pelo tamanho do texto.

Nesse tempo todo, se alguma coisa me deixou exasperado é a discussão suburbana que tomou conta da campanha para prefeito do Rio. Voto no Gabeira e declarei isso aqui assim que sua candidatura foi confirmada. E a foto que abre esse post nos mostra, Mariana e eu, em frente à Central do Brasil, no último sábado, quando fomos a uma caminhada em favor do (tomara!) futuro prefeito e que terminou com a doação de sangue do grupo em favor de quem quer precise.
Esse pequeno grupo – pouco mais de 50 pessoas – era formado por jovens e idosos, casais e solteiros, suburbanos e não-suburbanos. E aqui chegamos ao ponto.

Gabeira disse que a vereadora Lucinha tinha uma visão suburbana sobre a questão do aterro de lixo de Paciência. Será que só eu entendi que esse ‘suburbana’, nesse caso, foi usado como antônimo de cosmopolita? Partindo do princípio que não sou mais ou menos inteligente que ninguém, será que estou louco?

Não pretendo escrever um tratado sobre o conceito de suburbano, da sub urbe. Mas para mim ficou claro: não se pode ter uma visão local, limitada, restrita sobre algo que afeta toda a cidade, toda a sociedade: sub urbe, urbe e polis.

Talvez tenha escrito de maneira simples demais, simplória mesmo (e se houver filósofos, sociólogos e antropólogos de passagem por aqui, queiram corrigir e/ou acrescentar). Mas agora quero deixar de tergiversar e olhar para o Rio, para o meu Rio.

Nascido e criado em Vila Isabel (o melhor bairro do mundo!), já morei na zona sul, voltei à Vila e, hoje, estou na Tijuca. Aprendi que subúrbio, por aqui, é bairro onde passa o trem. Assim, temos os subúrbios da Central e da Leopoldina. E o resto é zona (norte, sul e oeste) e Centro.

Pois o Joaquim Ferreira dos Santos escreveu hoje no Globo sobre algo que é absolutamente real no Rio: a alma suburbana não se restringe aos bairros do subúrbio. Permeia toda a cidade. E a estamos perdendo. Coincidência ou não, hoje meu vizinho me pediu a escada emprestada. Vocês têm noção de há quantos anos algum vizinho não me pedia algo? Há quantos anos eu não peço um favorzinho qualquer a um vizinho?

De certa forma, perdemos um bom bocado dessa alma. Se você acha que não, pense sobre quantas vezes você disse ao menos um bom dia para o seu vizinho de porta (não vou nem perguntar por aquele que mora dois andares abaixo de você). Pense qual foi a última vez que você bateu um bom papo com o jornaleiro ou o padeiro. Qual foi a última vez que você ficou de papo, no botequim da esquina, com gente que você só conhece de vista porque, afinal, mora no mesmo bairro?

Então existe duas coisas a tratar: a alma suburbana carioca, que precisa existir e ser estimulada, e a visão suburbana, que nenhum de nós pode ter. Pois meus caros, para apenas começar a tentar resolver os problemas do Rio, precisamos entender que vivemos numa metrópole, em pleno século 21, e precisamos pensar soluções que estejam de acordo.

Agora, suburbano mesmo, é descontextualizar a coisa de tal maneira que tudo seja visto como preconceito. É usar e abusar dessa visão torta na campanha. Porque, assim, a cidade segue partida e mal administrada.

•••

Hoje à noite parto de viagem para São Sebastião, de onde atravessarei de balsa para Ilhabela amanhã bem cedo, de onde velejarei para Santos a bordo do Fandango. Hoje começa uma semana especial, em que estarei realizando um sonho: correr a regata Santos-Rio, a mais tradicional travessia oceânica do Brasil.

Seremos sete a bordo do barco de 31 pés (pouco mais de 10 metros de comprimento), representando a Equipe Boteco 1, patrocinados pelo SuperCarioca.com, com apoio da Arapongas Tecnologia Mecânica e em parceria com o projeto Três no Mundo.

Será a primeira de quase todo mundo e não temos a pretensão de grandes resultados. O objetivo é participar, aprender e realizar o sonho. Depois disso, vamos tentar a Recife-Fernando de Noronha do ano que vem. E, quem sabe um dia, Cidade do Cabo-Salvador.

A largada da regata será às 12h15 de sexta e vamos antes para treinar e conhecer o barco. Serão 190 milhas (pouco mais de 350km) de vento em popa, segundo as previsões para o próximo final de semana. Se forem confirmadas, nossa previsão de viagem gira entre 30 e 36 horas. Se não, Deus sabe. A intenção é estar aqui no domingo, a tempo de votar.

Torçam por nós.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Desafios


Quem me conhece está cansado de saber o quanto sou apaixonado por essa bendita cidade chamada Rio de Janeiro, o quanto me dá urticária apenas imaginar a possibilidade de sair, de mala e cuia, da velha Guanabara.

Ao mesmo tempo, e apesar de todo o amor, é impossível não enxergar o que, afinal, grita aos quatro ventos: o Rio está destruído. O estado de degradação da cidade é tal que é difícil até escolher palavras para descrever.

Mas eis que estamos em ano de eleição para prefeito e vereadores, pleito onde se metem mais ou menos o governador, o presidente, deputados, senadores e outros notáveis dessa nossa maravilhosa república de bananas.

Pois aproveito o ensejo e lanço alguns desafios ao Cabral e seu candidato a prefeito Eduardo Paes, ao ex-prefeito em exercício César Maia e sua candidata, Solange Amaral. Excluo o apedeuta, pois este não tem coragem de encarar o povo em campo aberto, sem claques e afins, desde a vaia pan-americana. Mas incluo seu candidato oficial, Molon. Desafio Crivella, outro de Lula e líder nas pesquisas.

Também incluo Chico, Gabeira e Jandira nesse desabafo travestido em desafios.

Sem a presença de seguranças, assessores e outros puxa-sacos, gostaria de ver cada um deles a:

- Tomar o metrô na estação Carioca, às 18h, e conseguir entrar no primeiro trem que chegar à plataforma, em direção à Zona Norte
- A fazer uma viagem confortável pela linha 2 do metrô, entre 18 e 19 horas
- A passar o dia em um carro, das 8 às 20h, e terminar a jornada sem nenhum dano no automóvel provocado pelo estado lastimável ruas da cidade
- A fazer uma caminhada na Avenida Rio Branco, da praça Mauá ao Obelisco, com ligeiros desvios para o Largo da Carioca e 13 de Maio, sem torcer um pé ou joelho sequer
- A andar a pé pelas ruas da cidade, á noite, sem reclamar da falta de iluminação
- A passar pelas linhas Amarela e Vermelha em um carro ou ônibus sem vidros blindados sem que seu ritmo cardíaco seja alterado pela apreensão
- A tomar um trem na Central do Brasil, às 18 horas, e viajar confortável
- A sair do Centro em direção à Barra da Tijuca e gastar menos de duas horas no trânsito, viajando em pé no ônibus
- A olhar para o enorme número de crianças e mendigos nas ruas sem se incomodar
- A passar próximo de qualquer favela sem sentir medo, não importando a hora do dia
- A mergulhar na Baía de Guanabara sem sentir nojo
- A aproveitar o Cristo Redentor em um Domingo sem se aborrecer com o trânsito ou com flanelinhas
- A levar seus filhos à Floresta da Tijuca em um domingo e não ter medo de ser assaltado
- A fazer a travessia Rio-Niterói-Rio de barca em dia de nevoeiro e não ter medo de ficar a deriva
- A andar de cadeiras de roda sem depender da boa vontade ou ajuda de ninguém
- A estacionar seus carros sob as guardas de flanelinhas de todos os tipos, sob o risco de ser assaltado ou ter o veículo vandalizado, tudo isso com sorriso no rosto
- A matricular seus filhos em escolas públicas, com ou sem aprovação automática, e não se incomodar com a qualidade do ensino
- A recorrer aos hospitais públicos em casos de emergência e ficar satisfeito

Etc. etc. etc. etc. etc. e quantos et ceteras mais vocês forem capazes de imaginar.

Resumindo, desafio Sérgio Cabral, César Maia, Eduardo Paes, Solange Amaral, Alexandre Molon, Marcelo Crivella, Chico Alencar, Jandira Fegali (é assim que escreve?) e Fernando Gabeira a, simplesmente, viver o Rio como deve ser e, depois, se apresentarem à população dizendo que suas administrações são excelentes, que tudo está melhorando, que ‘o futuro está aí e há de ser melhor pois tenho a solução’, que o legado do Pan foi realmente útil, que a violência está sob controle, que o Rio continua sendo uma cidade maravilhosa.

Sinceramente, faz tempo que não é. E não está com o menor jeito de que voltará a ser.
•••
Editado às 15h, 13/08
Do Ex-Blog do César Maia, ex-prefeito do Rio em atividade:

"RIO-CAPITAL VAI SEDIAR CAMPEONATO LATINO-AMERICANO NA NEVE!

Será realizado entre 3 e 10 de dezembro de 2008, na Enseada de Botafogo e compreenderá SKI e Snowboard. Para quem quer ter uma referência de pista de neve, basta lembrar a pista de esqui do desfile da ES. Viradouro, mas em tamanho oficial.

Clique abaixo e relembre a pista em tamanho menor, no desfile da Viradouro.

É ou não é uma beleza? Não é exatamente isso que a cidade precisa??? Salve o alcaide!!!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Dante e as cataratas do Iguaçu

Eram, mais ou menos, 20h30 de segunda-feira e, como boa parte das famílias brasileiras, eu e Mariana jantávamos no quarto assistindo ao Jornal Nacional. De repente, Adriça e Joana correram para a sala e começaram a latir perto da porta. A princípio, nada de estranho. Sempre que as luzes de casa estão apagadas e alguém passa pelo corredor, elas fazem o mesmo. Chamamos as duas e depois de dois ou três gritos elas voltaram.

De repente, a Mariana pergunta se eu não estava sentindo cheiro de queimado. Como eu tinha preparado a comida, fui até a cozinha para dar uma olhada (quem sabe não esqueci o forno acesso?). Tudo normal. Dei uma volta pela casa e, mais uma vez, tudo normal. Quando voltei para o quarto ela reclamou de novo do cheiro de queimado.

- Não parece cheiro de vela derretendo?
- Sei lá. Aqui em casa não tem nada errado. E nem vela temos acesa.

Quando terminamos de jantar, 20h55, deixei ela no quarto e fui para o escritório me divertir no computador e assistir ao Linha de Passe, a mesa redonda da ESPN Brasil.

- Me chama na hora que Pantanal começar...

Aquele cheirinho de queimado continuava, mas fraco, nada demais. Mas, de repente, o síndico e o zelador do prédio passaram pelo corredor de serviço:

- Vamos fechar aqui rapidinho para colocar a escada. Vamos entrar no apartamento de cima. Parece que tem fogo no quarto e não tem ninguém em casa.
- Precisa de alguma ajuda? – ainda perguntei.
- Não, já estamos com os extintores e só tem uma escada mesmo

Seguiram-se os barulhos de dois extintores e os dois desistindo, dizendo que não dava pra entrar, mas pra gente ficar calmo porque já tinham chamado os bombeiros.

Foi nessa hora que falei pra Mariana vestir alguma coisa, tirar tudo das tomadas, pegar as cachorras e dar no pé. E daí pra frente, foi o seguinte: o fogo lambeu o apartamento em cima do meu, os bombeiros demoraram meia hora pra chegar (mera impressão, pois não marquei o tempo) e, quando entraram, deram aquele banho para apagar o fogo. Acho até que, do ponto de vista dos bombeiros, não foi um dos trabalhos mais complicados.

Quando finalmente fomos liberados e voltamos pra casa, a Mariana entrou no apartamento e eu fui conversar com o síndico sobre o que tinha acontecido, como estava a moradora (que chegou no meio da confusão), se precisava de ajuda com alguma coisa, como levar ao médico etc.

- Gustavo, corre aqui!!!

Quando entrei em casa e vi o que estava acontecendo só uma coisa passou pela minha cabeça: fudeu!!!! (que os amigos desculpem, mas há horas e horas para um palavrão. Nessas circunstâncias, além de bem aplicado, poderia pensar em pelo menos mais uma dezena para substituí-lo).

A água escorreu pelo teto e pela parede, por cima do armário. De MDF, a estrutura virou esponja e estufou. O que tinha dentro, ficou molhado e com cheiro de fuligem.

Ondas...
A água que apagou o fogo no andar de cima escorria pela laje e pelas paredes do meu quarto, encharcando o armário por fora e por dentro, pingando em cima da TV e DVD, e alagando o quarto. Meio que no desespero, levamos os aparelhos para a sala e jogamos o que tinha nos armários, tanto quanto foi possível, em cima da cama. Ao mesmo tempo, mas em menor quantidade, também começou a pingar no escritório. E tratamos de salvar os computadores enquanto sofria pela possibilidade de perder os livros...


Do outro lado do quarto, mais água pingando e escorrendo em cima de armário, TV e DVD. Até a parede estufou.

Atrás do módulo da TV, o chão encharcado e sujo de fuligem, rodapés e fiação estragados.

Parênteses: há um certo lado cômico nessas situações. É impressionante como gente que nunca olhou pra você, de repente, começa a entrar na sua casa para olhar o que está acontecendo. E enquanto você tenta achar uma solução, é um tal de ‘ai meu Deus’, ‘ohs’ e ‘ahs’ sensacional. Também é legal que todo mundo ofereça ajuda, mesmo que não saiba como ou possa fazê-lo.

Com as coisas protegidas, dentro do possível, e já começando a ver a água escorrer pelo corredor do apartamento, fomos dormir na casa da minha mãe.

O dia seguinte foi de juntar tudo, arranjar um caminhão de mudança às pressas e dar o fora. Conseguimos levar quase tudo. Ainda voltamos ao apartamento na quarta e passaremos de novo no final de semana, pois ainda sobraram algumas coisas menores para levar.

Agora é conseguir contato com a moradora ou seu filho para tentar diminuir os prejuízos que não foram poucos.

A casa nova e a bagunça da mudança.
Saí de Vila Isabel (mas é bom deixar claro que nunca abandonarei o melhor bairro do mundo) e me tornei, oficialmente, um tijucano (vale o registro de que a Tijuca é o único bairro do Rio, quiçá do Brasil, com gentílico reconhecido). Agora, levantar as mãos para o céu e agradecer que, fora o susto, a aporrinhação e o prejuízo, ninguém se machucou. E vida que segue.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Chicabon

©The Cahier Achive

Há uma semana, em Interlagos, conversava com o Zé e o Rodrigo sobre a ‘torcida’ por nossos pilotos na F1. Chegamos à conclusão quase nova que, em terras tupiniquins, há quatro tipos: piquetistas, sennistas (até hoje) e os outros – esses divididos entre os que realmente gostam de corrida mas torcem para todos e aqueles que torcem até para jogadores de bocha, desde que sejam brasileiros.

Eu sou um piquetista. Aprendi a gostar de corridas de automóveis vendo o Nélson ser bicampeão mundial, em um tempo em que meu pai controlava a TV e, quando não havia mais brasileiros na pista, mudava de canal ou desligava pra fazer outra coisa, como ir à Quinta da Boa Vista ou à casa do tio Alcino.

Nunca neguei que Senna foi um grande piloto (pelo menos oficialmente, não sou louco), mas na comparação entre os dois ainda acho impossível não apontar Piquet como o melhor. Por várias razões, como a inventividade, o conhecimento mecânico e – claro – o indefectível ‘Troféu Limão’.

E eu gastei três parágrafos para dizer que foi impossível não comemorar a volta de um Piquet ao pódio.

É fato que o garoto teve, até chegar à F1, todas as facilidades possíveis para se formar piloto. E isso não é demérito. Também é fato que, até o Canadá, fez uma temporada sofrível. Assim como é fato que, desde a França, N.A. Piquet (Nelsinho é o cacete) melhorou muito (estava em quarto quando aquaplanou em Silverstone).

Não acho que Piquet seja, dos garotos que já chegaram e dos que estão quase lá, o melhor piloto. Nem de longe. Mas também acho que, na Fórmula 1 atual, não é necessário ser o melhor para sagrar-se campeão. Basta ser um deles e ter a chance de sentar em algum dos poucos grandes carros à disposição (a Renault não é um deles). Acho que Piquet está no bolo. Isso tudo para dizer que achei injusto o tom de algumas críticas que vinha recebendo, principalmente por ser um estreante. Como serão injustos e exagerados alguns elogios que receberá por conta do resultado de ontem.

O que importa é que ontem o garoto pilotou como gente grande. O melhor retrato disso foi a decisão de nem tentar segurar Hamilton para não perder terreno para Massa e garantir o segundo lugar.

E ele teve sorte sim, quando o safety car entrou logo depois que ele fez sua única parada e meio mundo (quase todos) ainda teria que entrar nos boxes. Como dizia Nélson Rodrigues, “sem sorte não se chupa nem um Chicabon. Você pode se esgasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha”. Ontem, Nélson Ângelo Piquet não deixou pingar nenhuma gota do seu picolé.